14/03/14

carta de uma mãe ao filho desaparecido



Meu filho, faz amanhã 16 anos que não te vejo, e depois deste tempo todo ainda espero por ti! Espero e esperarei até que me digam algo de ti! Este tempo todo imagino-te crescendo, tornando-te um homem, e eu aqui parada no tempo, à tua espera! Nunca deixarei de te esperar!!! De uma forma ou de outra, os dias sucedem-se, muitos já partiram, outros nasceram e cresceram enquanto estiveste fora... outros vão nascer em breve, sabias? Há tanta coisa para te dizer, tantas promessas a cumprir que não vão chegar o resto dos meus dias para os realizar... volta, estamos aqui todos à tua espera... tal como naquele fatídico dia 4/03/1998... Se não quiseres falar basta um abraço, tu sabes dar tão bem abraços! e beijos pequeninos... bem sei que estás crescido, mas a mim não vais negar?! Tenho tentado tudo para suportar a tua ausência... tudo mesmo!!! Às vezes digo a mim própria que é um pesadelo e que vou acordar a qualquer momento e tu estás aqui... depois abro os olhos e a realidade atordoa-me os sentidos! NÃO ESTÁS! e não posso fazer nada!!!!

Sabes, já nem rezo, olho para o vazio e mentalmente pergunto por ti?! Já nem sei quem sou, ou no que me tornei!!! Um fardo para uns... uma lunática para outros! Dizem que sou forte?! Quando eu sou tão frágil... imagina a tua irmã o que tem de suportar?! E ser a filha mais maravilhosa que alguém poderia ter! Porque é nisso que ela se tornou Pedro, num ser humano espantoso! Tens de ter orgulho nela! Vês filho, o que tenho para te dizer não chega uma carta... Como faço para comunicar contigo? A tua irmã está à distância de um telefonema, basta-me saber que está bem! Contigo faria igual, só quero que sejam felizes! É pedir muito filho? 

Quando puderes juras que me respondes? Eu continuo aqui à espera... Um Abraço do tamanho do mundo, da tua mãe que te adora e não sabe o que fazer sem ti?! 

P.S. Estou a escrever-te do teu quarto, o pai acabou de entrar, ele trabalha muito, e sente muito também a tua falta, só não sabemos como te dizer!? Daí a carta, desculpa se é muito longa, mas juro que se tu vieres eu não te canso! Eu calo-me e basta-me o teu olhar no meu. 
Adoro-te! 

Mãe

iogurte estragado


Nos últimos dois anos e tal já vi de tudo em matéria de ofertas de emprego: estágios não remunerados, trabalho precário, salários de 500 ou 600 euros em troca de elevadas qualificações, horários dignos do tempo da escravatura e exigência de carta de condução e viatura própria.

Vi de tudo, mas nunca isto, e acho que se atingiu o grau máximo da abjecção: um estágio pago em almoços na cantina e iogurtes para levar para casa.

Sem calorias, já se sabe, o trabalhador não rende. É preciso alimentá-lo.

Imagem retirada daqui: http://5dias.wordpress.com/


13/03/14

maçães podres



Recebi uma notificação da Google informando-me, aliás amavelmente, que um post meu foi removido deste blogue pelo seu, e passo a citar, "conteúdo alegadamente infrator e que poderá violar os direitos de terceiros e as leis de outros países."

A única infração que poderei ter cometido foi a de reproduzir uma fotomontagem de http://espectivas.wordpress.com que apresenta Bruno Maçães vestido de Hitler, mas mesmo assim duvido - até porque faço a devida referência à fonte da imagem -, que o blogue em questão se tivesse dado ao trabalho de recorrer à Google tanto mais que, julgo, gostará de ver o seu trabalho e ideias partilhados.

A não ser que ...

A não ser que tenha sido o texto o objecto da reclamação dirigida à Google. Se assim foi, estamos perante um claro acto de censura. Será legal neste país? Se calhar já é.

Se não foi o blogue proprietário da imagem, quem mais poderia ter feito queixinhas de mim? O Maçães, os assessores de Maçães (que os deve ter, agora que foi promovido a estrela governativa), os amigos de Maçães, o chefe de  Maçães em pessoa?

Tivesse sido o Maçães, um assessor, um amigo, o chefe, é preocupante o gesto. Quem é que andava, no tempo de Sócrates, a falar em asfixia democrática?

manifesto e mentirolas


Um rapazelho do aparelho, filho do ex-barão de Gaia, vituperou no Parlamento os signatários do manifesto que pede a renegociação da dívida. Catroga chamou-lhes, a alguns, ingénuos. Coelho tratou-os por "aquela gente". Cavaco exonerou  - ou melhor, mandou que se exonerassem - dois dos seus conselheiros por terem tido a ousadia de assinar o documento. Gomes Ferreira mandou-os arrumar as botas e deixar "os mais novos" trabalhar. Todos foram unânimes: de Ferreira Leite e Adriano Moreira a Francisco Louçã, os subscritores incorreram, no mínimo, no pecado de alta traição à pátria.

Diz "esta gente", Coelho e afins, que será muito mau se se souber "lá fora" deste manifesto. 

Repare-se na contradição: se tudo está bem em Portugal, se estamos a recuperar, se podemos pagar a dívida, se a recessão acabou, como o governo apregoa aos quatro ventos, que mossa poderá fazer este manifesto caso o seu conteúdo seja divulgado no estrangeiro?

Ou, hipótese para a qual me inclino mais, o governo mente, como sempre mentiu, e este manifesto mais não vem do que "destapar-lhes a careca", sendo mais incómodo quando a direita, que horror!, se associa à esquerda nesta denúncia?

12/03/14

cartazes, cartases


matemática explicada aos calhordas

Ontem, lá veio Pires de Lima repetir o que o governo, e os seus órgãos de comunicação social, vêm apregoando aos papalvos: que a economia portuguesa foi a que mais cresceu em toda a Europa comunitária.

Já o tenho dito por aqui, e volto a dizê-lo para que não restem dúvidas nas mentes mais propensas à generosidade: não entendo nada de economia, de finanças, de contas públicas, de PIB, de défice, de números.

Mesmo assim, atrevo-me a fazer umas contas de faz de conta: imagine-se que um cidadão, chamemos-lhe Zé Portugal, tem 3.500 euros no banco e que, num ano, conseguiu aumentar esse valor para, digamos, 7.000 euros. Se as contas não me falham, e perdoem-me se tal acontecer, o Zé viu aumentar as suas economias em 100%. Duplicou os proventos, grande vitória!, embora continue a ter, coitado, que apertar o cinto até cair de fartura de fome.  Por outro lado, temos o caso do Franz Alemão. Este possui no banco a soma de 1.000.000 de euros, a que somou mais 100.000 euros ganhos no último ano. O desgraçado do Franz viu a sua fortuna aumentar em 10%, uma miséria, apesar de ter agora no banco um espólio de 1.100.000 euros. Felizardo é o Zé, cuja conta subiu para os 7.000 euros e que "em termos percentuais", como se costuma dizer, cresceu mais do que a do Alemão: 100% contra apenas 10% do paspalhão do Franz. Toma e vai-te curar!

voltaram os cómicos!

Ontem vi, em diferido, o Prós e Contras de segunda-feira. Não me vou alongar sobre o programa em si. Mais do mesmo, sob a batuta bem domesticada da "moderadora". Salvo Raquel Varela, todos os ilustres convidados vieram prestar serviço aos prós, com uma ou outra nuance a fingir de contra, tendo até voltado à ribalta o célebre empreendedor de feiras e romarias, o cómico Gonçalves contratado por Relvas, um pequeno comediante de verbo fácil e raciocínio difícil.

Ao que venho, aqui, é para comentar o tom geral do "debate", comum a tantos outros "debates": os defensores da rapacidade reinante apresentam-se, invariavelmente, como os paladinos da razão e da moral, transformando em maus da fita exactamente aqueles que, sempre em desvantagem em programas desta natureza, ousam condenar os senhores do dinheiro, os únicos, benza-os deus, que produzem riqueza "para o País", os que criam emprego (à razão de 500 ou 600 euros por cabeça), os pobres banqueiros a quem andamos a pagar as contas, o arguto governo da Nação, leal servidor do capital salafrário.

Os comunistas, os bloquistas, os socialistas (verdadeiros) e outra esquerdalhada a pedir auto-de-fé, o que querem é a desgraça do País: a renegociação da dívida, a distribuição equitativa da riqueza, salários dignos para todos, a condenação exemplar de corruptos e afins, justiça fiscal, um Estado Social que promova a solidariedade, nunca a caridadezinha das sopas do Sidónio.

Uma imoralidade. Toda a gente sabe que um país, qualquer que ele seja, é pertença de uns poucos, dos mais ricos. Os outros são simples gado na engorda dos mercados. Que mal há nisso?

o esoterista

Por Viriato Soromenho-Marques
http://www.dn.pt/

Ao longo da vida, alguns têm a oportunidade da sua "estrada de Damasco". E eu acabo de ter a minha em relação a Cavaco Silva. Para interpretar um texto é preciso estar à sua altura, e até agora nenhum comentador percebeu o mistério que se oculta no prefácio de Roteiros VIII. Quando o PR nos pede consenso para 20 anos de servidão voluntária, percebi que era preciso finura hermenêutica. Será que o magistrado supremo pretendia imitar Jonathan Swift, que na sua satírica Modesta Proposta (1729), sugeria o canibalismo infantil para resolver a mendicidade irlandesa? Compreendi que a coisa era ainda mais subtil ao ler a frase onde se esconde o enigma: "Pressupondo um crescimento anual do produto nominal de 4 por cento e uma taxa de juro implícita da dívida pública de 4 por cento, para atingir, em 2035, o valor de referência de 60 por cento para o rácio da dívida, seria necessário que o Orçamento registasse, em média, um excedente primário anual de cerca de 3 por cento do PIB". Os simplórios pensaram que isto era a manifestação de um desejo, de uma preferência. Na verdade, trata-se apenas da tradução para a realidade portuguesa das exigências que os partidos do arco da governação contraíram ao aceitarem a revisão do Pacto de Estabilidade e Crescimento, nomeadamente o Regulamento (UE) n.º1177/2011, que obriga a reduzir a dívida pública excessiva, até ao limite de 60%, em vinte anos, assim como o reforço da camisa-de-forças contido no Tratado Orçamental, que é a nova Constituição Europeia, desde 01-01-2013. Afinal, Cavaco é um discípulo da escrita esotérica de Leo Strauss. É adepto de um erotismo semântico, que esconde, revelando. Que oculta, manifestando. O país está à deriva. Mas, revisitar as obras de Cavaco nesta lógica da suspeita interpretativa, promete as delícias de uma nova e iniciática ciência.