13/04/12

os donos de portugal

Não por acaso, vai passar na RTP 2 por volta da 1.30h da madrugada de 24 para 25 de Abril (se gosta de se deitar cedo, ponha a gravar). Baseado no livro de Francisco Louçã, Fernando Rosas e outros, este documentário conta a história das fortunas dos Champalimauds, dos Mellos, dos Espíritos Santos e, mais recentes, de Alexandre Soares dos Santos, Belmiro de Azevedo e Américo Amorim. Assalariados.

o que é nacional é bom ... acho ...

sardinhas em lata e o ovo de colombo

O lambreta Mota, aquele que brinca à caridadezinha enquanto o povo passa fome, já tinha tido a ideia (por isso é um ministro jovem, com a garra e a criatividade que só a juventude sabe ter): tanto creches como lares de idosos aumentaram a sua capacidade com uma regra simples - onde dormem três, dormem seis. Onde brincam cinco, brincam dez. Onde comem quinze, comem trinta.

Também nos transportes se faz sentir a mesma ideia: menos comboios a circular, mais gente a viajar por carruagem, cheios de calor humano, atafulhados mas quentinhos. 

Agora chegou a vez do prior Crato prosseguir na mesma senda: as turmas alargam-se e, se calhar, vamos precisar de menos escolas e de menos professores.

Isto sim, é que é poupar. A medida, não tarda nada, chegará aos hospitais, às repartições públicas, aos cemitérios.

Como é que ninguém se lembrou disto antes?

(montagem baseada numa fotografia de Spencer Tunick)

os três da vida airada!

Uma comédia que nos faz chorar. Um filme de terror. Actores mal amanhados. Para o lixo, já!

gabriela canavilhas

Gostei da sua participação, ontem, no telejornal do Crespo, na SIC Notícias. Convincente, bem preparada, com simpatia e, deixem-me que vos confesse o fraquinho, com um charme imenso. Espero que se dedique ao piano mas, se não o fizer, que fique pela política. Precisamos de mulheres como ela. E, a falar verdade, fazer pior figura que o Seguro, o Tozé balhelhas, não faria. 

mais publicidade à borla para o engenheiro saraiva e seu pasquim amestrado

porque cada povo tem o que merece, eis a demi moore à portuguesa

Imagem: http://wehavekaosinthegarden.wordpress.com/

notícias da china da europa

Por Manuel António Pina

Um indivíduo não eleito, que ocupa um cargo administrativo nomeado não se sabe (mas imagina-se) por que critérios, impede um autarca eleito de, em representação dos cidadãos de uma determinada cidade, visitar uma instituição pública dessa cidade.

Adivinhe o leitor onde se passou o episódio, exemplar de respeito pela Democracia representativa: na Coreia do Norte (dando crédito à noção de Democracia de Bernardino Soares e admitindo que na Coreia do Norte haja eleitos)?, em Cuba?, no Irão?, no Portugal salazar-marcelista? Não: foi em Portugal, desde há 38 anos "um Estado de Direito democrático", onde "os actos do Estado e (...) outras entidades públicas dependem da sua conformidade com a Constituição".

O que se passou foi que o presidente da Câmara de Lisboa ia já a caminho da Maternidade Alfredo da Costa para a visitar quando recebeu um telefonema da direcção desta instituição informando-o de que o administrador regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo a proibira de receber o autarca, sob pena de processo disciplinar. Mais: segundo a RTP, todos os clínicos da Maternidade estão proibidos de falar com a comunicação social, isto num país cuja Constituição garante que "todos têm o direito de exprimir e divulgar livremente o seu pensamento pela palavra, pela imagem ou por qualquer outro meio (...) sem impedimentos nem discriminações".

Pelos vistos não foi só em matéria laboral que já chegamos à China.

zona laranja

Por Morgada de V

Há uns anos, quando os americanos ocuparam o Iraque, refugiaram-se no palácio do antigo ditador, um enclave luxuoso com piscinas e centros comerciais que ficaria conhecido por “Zona Verde”. Mal ali chegaram, no afã habitual que os caracteriza, funcionários inexperientes nomeados por Bush trataram de traçar, no sossego do computador, soluções burocráticas para o país. Um deles, chamado James K. Haveman (qualquer semelhança com “Caveman” é uma deliciosa coincidência fonética), a quem alguém ainda mais tonto do que ele entregou a pasta da Saúde, decide que aquilo de que o Iraque precisa é de uma campanha anti-tabaco. Nas ruas de Bagdad vai uma guerra mortífera; nos hospitais, cortes de energia matam bebés em incubadoras. Não há analgésicos nem medicamentos. Mas para o funcionário americano, o problema, claro, é o tabaco.

Vem tudo contado no excelente “Vida Imperial na Cidade Esmeralda”, do jornalista Rajiv Chandrasekaran:

Haveman arrived in Iraq with his own priorities. (…). He urged the Health Ministry to mount an anti-smoking campaign, and he assigned an American from the CPA [Coalition Provisional Authority] team — who turned out to be a closet smoker himself — to lead the public education effort. Several members of Haveman’s staff noted wryly that Iraqis faced far greater dangers in their daily lives than tobacco. The CPA’s limited resources, they argued, would be better used raising awareness about how to prevent childhood diarrhea and other fatal maladies.

Quando li isto, há uns anos, não consegui afastar a imagem de um iraquiano barbudo a fumar para cima dos posters sanitários do ocupante: “Smoking kills”. Barbudo, a fumar e a rir: é assim que eu gosto de imaginar o meu iraquiano — embora reconheça que o humor, essa válvula de escape, também tem os seus limites.

Fast forward para o presente: Portugal, 2012. A Troika ocupou o país. Aconselhado pelos burocratas da Comissão Europeia e do FMI, o ministro da Saúde fecha hospitais e maternidades. Relatos na imprensa dão conta de gente a morrer com cancro por não conseguir pagar os tratamentos. O povo deixa de ter dinheiro para as urgências. Estar de baixa passa a ser um luxo reservado a doentes ricos. Comer também: criancinhas vão para a escola sem terem jantado, e pequeno-almoço, viste-lo. Mas o Governo está atento à saúde dos menores: vai proibir os paizinhos de fumar no carro, e exigir além disso a colocação de “advertências mais explícitas nas embalagens que mostrem e exemplifiquem as consequências do tabagismo na saúde”, Paulo Macedo dixit. Não sei o que é que este ministro anda a fumar, mas deve ser MUITO fixe.

a culpa é do sócrates

Para derrubar Sócrates e abocanhar o poder, toda a gente sabe que Passos Coelho recorreu à mais descarada mentira. E ao ataque constante a Sócrates, com a acusação de que a penúria nacional, o descalabro das finanças, se devia a ele e só a ele, nada tinha a ver com circunstâncias internacionais, com a gula dos mercados, com o desregulamento das instituições financeiras, com o neoliberalismo reinante, com o capitalismo na sua pior faceta. Não. Nada disso. A culpa era todinha do Sócrates, gastador e, se não o diziam directamente arranjavam alguém que fizesse o trabalho de sapa por eles, corrupto.

Agora, Sócrates continua a ser culpado da situação do país e dos sacrifícios pedidos (que lindo eufemismo!) aos portugueses. Por tudo e por nada, eis que se invoca o seu nome. Destrói-se a saúde? Não há dinheiro, a culpa é do Sócrates. Roubam-se as reformas? Não há dinheiro, a culpa é do Sócrates. Fragiliza-se o Estado Social, privatiza-se por tuta-e-meia, despede-se mais depressa e mais barato? Não há dinheiro, a culpa é do Sócrates.

Ah! O governo está a fazer tudo por tudo para repor o que Sócrates destruiu. Mas tudo depende das circunstâncias internacionais. O que não era válido há um ano, a crise internacional, é agora invocada a torto e a direito para desculpar o governo caso ele falhe. E vai falhar, claro. E arrastar-nos consigo para o esgoto onde, cada vez mais, se atola.

Não sou defensor de Sócrates, nem agora nem nunca. Mas, quando se escrever a História destes anos, ela não vai ser bonita de se ler. E a culpa não será do Sócrates. Os esquemas sórdidos pela conquista do poder e o orgulhoso empobrecimento dos portugueses não foram obra de Sócrates.

12/04/12

josé antónio saraiva - a ciência é uma coisa fantástica


Por Samuel

(José António Saraiva, in “Sol”)

Não se pode deixar de ficar esmagado perante o brilho literário e, sobretudo, o rigor científico deste verdadeiro tratado de “sexo-antropologia”, em boa hora parido pelas meninges do genial director do “Sol”.
Não consegui uma fotografia que testemunhasse este bonito momento de descoberta vivido por José António Saraiva, dentro do elevador... nem sequer uma que mostrasse o modo de poisar os pés no chão. Daí ter-me ficado pela pesquisa do "cruzar de mãos e ligeira inclinação da cabeça".

Não faltavam exemplos por onde escolher. Na verdade, acabei por utilizar a primeira fotografia que veio à mão.

A “ciência” é uma coisa fantástica!!! Parafraseando Einstein, é quase tão infinita quanto a estupidez!

saúde "manu militari"

Por Manuel António Pina

Quatro anos depois, o dr. Francisco George, eterno director-geral de Saúde, está a convocar as tropas higieno-fascistas para a 2ª Cruzada Antitabagista, desta vez mobilizando também as brigadas anti-álcool (as próximas cruzadas já contarão com as brigadas anti-sal, anti-açúcar, anti-gorduras polinsaturadas, anticafeína, etc.), tudo sob o comando de um até aqui anónimo secretário de Estado da Saúde.

Parece que um estudo encomendado pela Direcção-Geral terá concluído que um em cada quatro portugueses morre prematuramente, "em parte devido ao tabaco" (a parte de mortes devidas à miséria, ao desemprego ou à fome não vem nas estatísticas do dr. George). Era do que secretário de Estado e director-geral precisavam para se sentirem no direito de se intrometer nas decisões pessoais, na vida, na casa, e até nos automóveis alheios.

Restaurantes e bares dirão adeus aos investimentos feitos e deixarão de poder ter espaços reservados a fumadores; até à porta será proibido fumar (e quem for a passar?, terá que mudar de rua?); serão proibidas máquinas de venda automática de tabaco (não há máquinas de venda de "cavalo" ou de "branca" e nem por isso é difícil obtê-los...); proibir-se-á fumar dentro de carros com crianças (haverá um inspector da ASAE dentro de cada carro?); quanto ao álcool, nem uma "mini" poderá ser vendida em bombas de gasolina ou após a meia-noite.

A estrela amarela ao peito ficará para mais tarde.

11/04/12

onde é que já ouvi isto?

que raio de governo é este?

Que raio de governo é este que, contra todos os avisos - até mesmo, pasme-se!, do próprio FMI -, persiste numa política de austeridade que não é mais do que roubo aos portugueses, aviltamento das instituições, venda ao desbarato do património nacional, ruína da educação e da saúde públicas? Que persiste em denegrir os trabalhadores, tratando-os como párias, responsáveis por todos os males do País? Que raio de governo é este e que raio de povo somos nós que os aguentamos, calando e rindo, amorfos ou, pior, atoleimados?

e as crianças, senhor?

porquê o silêncio sobre a islândia?



Por Theo Buss

Os acontecimentos que sucederam ao desencadear da crise na Islândia - demissão em bloco do governo; nacionalização da banca; referendo, de modo a que o povo se pronuncie sobre as decisões económicas fundamentais; prisão dos responsáveis pela crise e reescrita da Constituição pelos cidadãos – têm sido sistematicamente silenciados. Compreende-se porquê. Mas há a necessidade de divulgar esse exemplo.

que aborto haveria de gostar de uma maternidade?


Não defendo a Alfredo da Costa por razões sentimentais. Só isso não basta para preservar uma instituição, muito menos se quem governa só vê números e, ainda por cima, os vê mal. Defendo a Alfredo da Costa porque acredito nos profissionais que estão contra o seu encerramento, que a consideram crucial em Lisboa. Defendo a Alfredo da Costa porque acredito que Paulo Macedo, o rei do fisco nos seus tempos áureos, se está nas tintas para a saúde dos portugueses. O seu remédio é o dinheiro. O seu deus, o capital. O seu fito, a privatização da saúde. A morte dos pobres. E, se forem velhos ou desempregados, tanto melhor. Mais fica.

um tiro em atenas

Funeral de Dimitris Christoulas
Por Baptista Bastos

Era um velho decente, formal e limpo. E havia nele memórias, sofrimento e grandeza. Olhou em volta. Nem a sombra de um remorso nem aquele limite denso e excessivo que a idade costuma expor. Olhou em volta e talvez estivesse a lembrar-se dos vendedores de esponjas de antigamente, que ofereciam o produto na praça da Constituição; ou das tavernas com parreiras, na Plaka, sob as quais comera queijo de cabra e bebera resinato, nos longos dias de calor. E de mulheres com quem dançara, pelas festas perdidas para sempre.

Passara por muitas coisas de infortúnio e por algumas alegrias selvagens e dispersas. Transfigurada de ventos e de silêncios, a cidade fora invadida pelos nazis, envolvendo de medo e atrocidades o chão sagrado dos deuses, dos poetas e dos filósofos.

Atravessara o luto criado pelos coronéis, com a consciência de que a adversidade era fruto da falta de bondade e de compaixão, aparentemente inexplicável. Fora preso por querer ser livre. Conhecera as rudezas do desemprego, e os ténues acenos de uma esperança obstinada. Depois, como se a sociedade precisasse de um mundo de compensações, haviam-lhe reduzido o ordenado, e aumentado tudo o que pertencia aos domínios da sobrevivência estrita. Mais tarde, extorquiram-lhe os subsídios e limitaram-lhe os proventos de uma reforma escassa.

Suportou as gradações da infelicidade, porque aprendera que a infelicidade nunca é lisa, e dispunha sempre de diferentes medidas de circunstância. Chegara, assim, ali: àquele plaino com relvado, de onde se divisava o que desejasse ser divisado. E descobrira, exausto e triste, de que pouquíssimas vezes o tinham deixado ser feliz e livre.

Soltou um grito. Como se quisesse desabafar a dor insuportável que sobre ele tombara, lhe vergara os ombros e lhe ferira o mais secreto da sua fé. As coisas são como são, diziam. Mas ele não queria que as coisas fossem como queriam que elas fossem.

A partir de certa altura, decidira manter uma atitude respeitosa e marginal. Nem mesmo assim obtivera paz e sossego. A verdade é que um homem está sempre ligado ao seu passado. O aparente apaziguamento interior não domesticara a ira, a cólera e a indignação que sentia, sobretudo quando a sua terra deixara de ser a lenda e a história e fora transformada numa litografia imbecil.

Quando gritou, gritou para aqueles que o não ouviam ou não desejavam ouvir. Assaltara-o o medo de ter, num futuro próximo, de esgaravatar nos caixotes de lixo, em busca de comida. E de deixar aos filhos e aos netos o peso de dívidas e a impossibilidade de as pagar. Sentou-se na relva. Ninguém o olhou. Há muito que as pessoas não se cruzavam: trespassavam-se.

Gritou: eles não respeitam nada nem ninguém!

E disparou o revólver na cabeça.

Dimitris Christoulas, 77 anos, reformado, grego. Nosso irmão.

isto (ainda) não é o burkina faso, ou será?

venha outro!

Está-nos a fazer falta outro. Mas, desta vez, sem cravos. Sem perdão.













10/04/12

isto é demasiado grave para não ser divulgado


Retomando uma "denúncia" de 2009, anda por aí a circular um email que condena o casamento de crianças na Palestina, ilustrado com imagens das supostamente noivas de mão dada com os maridos. A notícia foi desmentida, as crianças acompanhavam simplesmente os familiares vestidas a rigor, mas mesmo assim a acusação regressa, três anos depois. Não sou um especialista em islamismo, não sou sequer fervoroso defensor dos seus hábitos e crenças, mas estou e estarei sempre do lado dos que mais sofrem.

Aqui fica o documento da "denúncia" original:
A Pedofilia do Hamas

custe o que custar

Há por aí uns estarolas, carolas bem pensantes, que não cessam de acusar a esquerda pela situação a que o País chegou. Não é só o Sócrates que é posto em causa, a ovelha ronhosa de todas as malfeitorias, é o PS todo, é o PC inteiro, é o BE em bloco, são todos os outros que nunca se sentaram sequer no parlamento. A esses mariolas, carolas bem pensantes, gostaria de dizer três  ou quatro coisas bem evidentes: 1) a crise é global e artificialmente montada pelos mercados financeiros, como tal as culpas de Sócrates são relativas (embora imperdoáveis); 2) o PS não esteve sempre no poder, o PSD e o CDS partilharam-no durante décadas; 3) O PS, no poder, raramente actua à esquerda mas sim à direita; 4) o PCP e o Bloco de Esquerda nunca governaram.

O que eles queriam sei eu: era que a esquerda (a que não governa mas que consegue, ainda assim, proteger os trabalhadores através da sua luta) se calasse, deixasse de protestar e de conseguir direitos e regalias para quem trabalha. É que, se não o fizer, se não se calar de uma vez por todas nem que seja depois de um bom safanão, coitado do patronato, o do grande capital entenda-se, que deixa de poder viajar em jactos privados, de comprar mansões na Quinta do Lago, de fazer férias nas Seychelles, de ir às compras a Milão e a Nova Iorque. Que importa os que passam fome, os que se suicidam, os que perdem empregos e sonhos. Danos colaterais numa guerra que eles querem ganhar. Custe o que custar.

e temos tantos desses

"Não há pior analfabeto que o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. O analfabeto político é tão burro que se orgulha de o ser e, de peito feito, diz que detesta a política. Não sabe, o imbecil, que da sua ignorância política é que nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista, desonesto, o corrupto e lacaio dos exploradores do povo."

Bertolt Brecht

a outra crise grega

Num país gravemente afectado pelas medidas de austeridade do FMI e da União Europeia, os gregos não são os únicos que sofrem. Menos visível, mas tão ou mais dramática, é a situação dos imigrantes ilegais no país. Perante a indiferença - e até a hostilidade - dos países ricos.

seguro no reino da mansidão


Que tristes figuras anda este homem a fazer. Tristes e nocivas para o país quando mais precisávamos de um PS forte e, para variar, de esquerda. Não percebo, sinceramente não percebo, como foi eleito e como se mantém sem efervescências da massa associativa. Que mansidão de país. Que torpor.



09/04/12

e portugal?

"como é possível manter um governo em que um primeiro-ministro mente?"

Por Daniel Oliveira

Quando estava em campanha Pedro Passos Coelho criticou os sacrifícios exigidos aos portugueses. E disse, curiosamente no dia 1 de Abril de 2011: "eu já ouvi o primeiro-ministro dizer infelizmente que nós queríamos acabar com muitas coisas e também com o 13º mês mas nós nunca falámos disso e isso é um disparate".

A 17 de Outubro de 2011, depois de ter feito o que era "um disparate" antes dos portugueses irem a votos, o ministro das Finanças disse: "o corte no subsídio de férias e de natal é temporário e vigorará durante o período de vigência do programa de ajustamento económico e financeiro e o período de vigência desse programa acaba em 2013".

A 4 de Abril de 2012 o primeiro-ministro disse: "A partir de 2015 haverá reposição desses subsídios. Com que ritmo e velocidade não sabemos". Antes de assumir esta alteração de prazos vários membros do governo ainda tentaram convencer os portugueses que nunca se tinham comprometido com a reposição dos subsídios em 2014.

Foi agora anunciado que essa reposição será feita às pinguinhas. Ou seja, o corte que era um disparate antes das eleições foi feito depois das eleições. Com o compromisso de voltarem a ser pagos em 2014. Nem serão pagos, na realidade, em 2015.

O governo falhou duas vezes o compromisso com os portugueses. Antes de ter o voto, prometeu que não faria o que fez. Antes da aprovação do orçamento, comprometeu-se com uma data que não vai cumprir. Em nenhum dos casos assumiu as suas mentiras.

"Como é possível manter um governo em que um primeiro-ministro mente?" A pergunta foi feita por Passos Coelho referindo-se a José Sócrates. Era justa na altura. É justa agora.

de colonizadores a colonizados


O Presidente do Conselho vai andar por Moçambique. Faz-me lembrar os vendedores de outros tempos que, de terra em terra, vendiam peças de ouro e prata a preços mais baratos do que nas lojas. Só que, agora, o objecto de venda é o nosso património, o seu, o meu, o de todos. Da China aos Estados Unidos, do Brasil a Angola e Moçambique, vamos sendo colonizados e espoliados do pouco que nos resta, que é também para isso que "a crise" foi inventada. De Passos a Portas, de Gaspar a Pereira, todos os vendilhões ministros se apressam a vender-nos a pataco. Porque a troika manda e Passos quer. 

08/04/12

tragédia grega, tragédia global



Dos mesmos autores de Debtocracia.

quantos mais se matarão?


O governo de ocupação aniquilou-me literalmente qualquer possibilidade de sobrevivência dado que o meu rendimento era inteiramente proveniente de uma pensão que eu, sem qualquer apoio de ninguém nem do Estado, financiei durante 35 anos.

Porque a minha idade me impede de assumir uma acção radical (se não fosse isso, se um cidadão decidisse lutar com uma Kalashnikov, eu seria o primeiro a segui-lo), não me resta nenhuma solução excepto colocar um fim decente à minha vida antes de ser forçado a procurar comida nos caixotes do lixo e de ser um peso para os meus filhos.

Eu acredito que a juventude sem futuro brevemente se erguerá [literalmente: “empunhará armas”] e enforcará todos os traidores nacionais de cabeça para baixo, como os Italianos fizeram a Mussolini em 1945 [Piazzale Loreto, Milão]. 

Dimitris Christoulas

quem diz director financeiro diz ministro das finanças ou até mesmo primeiro

a bolsa ou a vida!


Coelho vem agora afirmar que Portugal poderá não regressar aos mercados em 2013. Precisamente aquilo que todos lhe andam a dizer há meses e que tem negado categoricamente. Já nem mentir sabe. Mente muito, mente mal. Ele e os da sua igualha, os deste poleiro e os do que está para vir. Entretanto, continua o assalto à bolsa e à vida dos portugueses. Já se diz por aí, e não há fumo sem fogo, que os cortes dos subsídios de Natal e de férias serão definitivos (essa de os integrar nos salários é mais uma peta, e das mais sórdidas). 

Nunca se viu coisa assim em Portugal nas últimas décadas. Tanta insensibilidade, tanta frieza, tanto vil desprezo pelos portugueses. Desprezo que os portugueses, tantos deles, digo-o com desgosto e náusea, aceitam como uma fatalidade de quem se portou mal, de quem andou a viver à tripa-forra com o dinheiro dos outros, acima das suas possibilidades (é o que lhes dizem e eles acreditam) e, afinal de contas, se sempre fez cá muita falta um Salazar, agora temos um. Ou melhor, pensando bem talvez dois ou três. Estamos safos.

tudo é mau em portugal

Por Baptista Bastos

Tudo é mau em Portugal. A começar pela vida e a continuar no Governo. E desconhece-se quando e onde o mau vai terminar. O desemprego cresce na directa proporção em que os assaltos aumentam. O poder possui uma visão fantasmagórica do que se passa, e inscreveu as suas decisões numa perspectiva de terror. As diferenças com uma espécie particular de totalitarismo são escassas.

Começa a ser cada vez mais nítido: o Governo não sabe o que faz, nem possui nenhuma estratégia de solução dos nossos problemas. E o ministro da Finanças dá sinais enervantes de cansaço, a que muitos qualificados economistas designam de desfasamento com a realidade, e outros, de incompetência. Passos Coelho anunciou uma linha ferroviária europeia, que não vai existir porque sem continuação em Espanha; o governador do Banco de Portugal assevera que vamos precisar de mais "austeridade" e o primeiro-ministro diz que não, antes pelo contrário; uma reunião, anteontem, na Concertação Social traduziu-se numa barafunda atroz, na qual o pobre João Proença, esquemático e atrapalhado, surgiu como uma criatura, manipulada pelas suas próprias ambivalências. Então ele não sabia que, depois de subscrever aquele infausto documento, sobre as leis do trabalho, que outras coacções se lhe seguiriam? Os cortes na Saúde, que deixam sem tratamento doentes oncológicos, e a diminuição de dias nas baixas por doença, são capítulos de um processo de reversão que põe em causa o próprio Estado Social. Quem for cúmplice deste projecto de demolição dificilmente poderá dizer-se respeitador da ética progressista e do humanismo.

Os próprios patrões começam a espavorir-se com as "indecisões" do Governo, que nada faz para realizar uma política de crescimento e de desenvolvimento económicos. Além de tentar ser fiel a uma ideologia que põe a Europa em perigo, este Executivo demonstra o desprezo sem limites pelo cidadão e pelas suas ansiedades. Apesar de aproveitar de dispositivos de coerção quase nunca vistos. Estamos a emigrar em massa, como na década de 60; e a despovoar o País sem dó nem piedade. Estamos, sobretudo, a subverter o próprio conceito de identidade, e obrigados a desfazer-nos da narrativa que nos diferenciou.

O PS, por seu turno, ainda não encontrou o enquadramento ideológico que forneça ao debate público um interesse sobrelevante de questões insignificantes. Seguro entrou na questiúncula provocada pelo Marcelo, que teceu, na TVI, uma teia reticular de intriga, tão ao seu gosto e estilo. E o secretário-geral socialista, em vez que resolver o berbicacho com um displicente: "Não comento o que dizem os comentadores", embrenhou-se em explicações desnecessárias. Logo o Marcelo ameaçou responder, no próximo domingo.

Que interesse tem isto para as pessoas?

o FMI está triste

Por Manuel António Pina

O FMI está "triste". "Ficámos profundamente tristes", afirmou o porta-voz da instituição a propósito do suicídio, diante do Parlamento grego, de um reformado que viu a sua pensão, para a qual descontou toda a vida, ser "aniquilada" (as palavras são suas numa nota que deixou) pelo "governo de ocupação" grego de que faz parte o FMI e que, como em Portugal, a troco de empréstimos para salvar a banca responsável pela crise exigiu - e o governo grego, como o português, obedeceu - medidas de austeridade sobre os mais pobres, que semearam o desemprego, a miséria e a desgraça no país.

No mesmo dia, o mesmo FMI pediu ao Governo, ao patronato e à UGT (e os pedidos do FMI são ordens no protectorado em que Portugal, tal como a Grécia, se tornou) "mais flexibilidade salarial", o que, em "economês", significa ainda maiores cortes nos salários. Isto enquanto foi avisando que é "bem possível" que a receita da "troika" (austeridade, austeridade, austeridade) possa levar o país a "uma recessão mais profunda do que a prevista", e logo dando a solução: mais austeridade ainda. A contar com isso, acena no mesmo comunicado com a aprovação de uma nova tranche de empréstimo, no valor de 5170 milhões de euros.

E, quando algum reformado ou algum desempregado português fizer o que fez o reformado grego para não ter que, como ele, "procurar que comer no lixo", o FMI ficará "triste". Porque, para o FMI, é melhor a morte lenta.

portugal naufragado