metamorfose europeia


Por Viriato Soromenho-Marques
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A Europa de 2013 já não é a de 1986, quando Portugal se tornou membro efetivo da CEE. Nem a de 9 de maio de 1950, quando Robert Schuman anunciou a criação da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço. Nós, cidadãos dos 27 Estados membros, olhamos para este território, para estas instituições, para a atmosfera reinante no que ainda se chama União Europeia, e é impossível não sofrer o mesmo calafrio sentido por Gregor Samsa, o personagem central da novela de Kafka, A Metamorfose, quando numa bela manhã, ao acordar, descobriu que se transformara num horrendo inseto. A Comunidade em que Portugal entrou tinha três objetivos fundamentais: impedir que a Europa pudesse voltar a ser dominada por uma potência hegemónica; garantir o respeito pelas leis e pelos direitos humanos à escala continental; assegurar progresso e convergência sociais fundados numa visão de paz e prosperidade económica sustentável. Se Jean Monnet ressuscitasse agora, cairia sobre os joelhos, dobrado pela comoção e angústia face ao brutal contraste entre esses objetivos e a realidade: a Europa vive sob um regime de indisputada hegemonia germânica, como se um génio maligno tivesse reescrito o final dos sangrentos anos de 1918 e 1945; a única lei vigente são os acórdãos do Tribunal Constitucional Alemão, pois os Tratados são letra morta, e os titulares dos cargos das instituições europeias transformaram-se em sombras patéticas; a UE tornou-se numa das maiores ameaças à segurança mundial, pelos riscos globais da sua eventual implosão, e promoveu, com frieza e deliberação, o regresso da pobreza e da fome à Europa como parte dos programas de austeridade incluídos nos memorandos de entendimento. Boa sorte para 2013! Bem precisamos dela para sair deste pesadelo.

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