vítor gaspar no bundestag

Por Viriato Soromenho-Marques

Com o seu habitual zelo religioso (mesmo que seja a um deus desconhecido), Vítor Gaspar falou quarta-feira aos deputados em Lisboa, como se estivesse no Bundestag, com Merkel a seu lado. Foi incapaz de reconhecer o caminho suicidário do "ajustamento". Incapaz de compreender que a raiz do mal que poderá matar a Europa reside no carácter monstruoso da arquitectura da Zona Euro (que combina perigosamente união monetária com fragmentação orçamental, sem cuidar da união política). Pelo contrário, essa arquitectura é tida como um inalterável fim da história. Custe o que custar, doa a quem doer. Aconselho a Vítor Gaspar a leitura de vozes sensatas e sábias que, na Alemanha, alertam para a catástrofe em que Berlim nos ameaça mergulhar a todos. O grande sociólogo Ulrich Beck, num ensaio com o título significativo de "A Europa Alemã", chama a atenção para o modo como Merkel rompeu as regras do jogo na Europa, passando da cooperação para a imposição: "Porém, este jogo de soma positiva da cooperação transformou-se, ao longo da crise do euro, num jogo de soma nula e alguns participantes têm de se conformar com perdas enormes de poder." Do mesmo modo, o jornalista e editor Jakob Augstein alertava para o egoísmo da chanceler: "A ideia de Merkel para a integração europeia consiste em simplesmente afirmar que a Europa se deve inclinar à vontade política alemã." Tudo isso conduz, segundo U. Beck, a uma encruzilhada: "(...) a crise do euro tirou definitivamente a legitimidade à Europa neoliberal. A consequência é a assimetria entre o poder e a legitimidade. Um grande poder e pouca legitimidade do lado do capital e dos Estados, um pequeno poder e uma elevada legitimidade do lado daqueles que protestam." A Europa só se salvará quando a legitimidade se tornar poder. Mas para isso não basta citar Tito Lívio. É preciso compreendê-lo.

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