o paulinho das rábulas

Por Daniel Oliveira

Paulo Portas é um artista. Como todos os bons artistas, não tem problemas em desempenhar vários papéis. Já foi rebelde, já foi estadista, já foi amigo dos lavradores, do "espoliados do Ultramar", dos ex-combatentes, dos reformados, das empresas, dos feirantes, dos trabalhadores. Já foi liberal e democrata-cristão. Já foi radical e desancou nos imigrantes e no RSI. Já foi moderado e cheio de preocupações sociais. Servem-lhe todos os bonés que a cada momento lhe convenham. O seu talento é inversamente proporcional à firmeza das suas convicções.

Paulo Portas tem muitas vidas. E como nunca morre, vai cada vez mais longe no risco. Disse que deixaria de falar a um amigo se este fosse para o poder. Nenhum amigo sobreviveu à sua sede de poder. Já teve, quando foi candidato à Câmara Municipal de Lisboa, um cartaz em que jurava: "Eu fico!" Foi eleito vereador, não ficou e ninguém lhe pediu contas. Foi-se embora da liderança do CDS porque um "partido trotsquista" estava demasiado próximo. Fez a vida negra a quem o substituiu e, à primeira oportunidade, voltou, como se nada fosse. Deixou cair todos os que lhe pudessem fazer sombra. Fez a sua corte, sem nunca deixar que alguém pudesse ser visto como candidato ao seu lugar. Prometeu mundos e fundos a todos os seus eleitores. Nunca cumpriu uma promessa.

Agora Paulo Portas faz o papel da consciência social deste governo. Podia ser outro qualquer, mas este é o que agora lhe convém. Como sempre, comentadores e jornalistas fingem que não sabem quem é Portas. Ele dá bons espetáculos e osmedia não querem estragar bons momentos televisivos, bons diretos, bons dramas cuidadosamente encenados.

Soubemos, no entanto, pelos jornais, que a sua brilhante homilia de domingo foi combinada com Passos Coelho. E ontem ela chegou ao fim: a Contribuição Extraordinária de Sustentabilidade, que representa uma pequeníssima parte do pacote de austeridade, caiu. Gaspar já tinha deixado uma margem razoável para ela cair. Porque ela apenas foi criada para isso mesmo: para que Portas aceitasse tudo menos uma coisa que já se sabia que não era para avançar. Para Portas fingir que fazia voz grossa e Gaspar e Passos fingirem que o respeitavam. E assim, aceitando tudo, Portas consegue passar a ideia de que a sua presença neste governo muda alguma coisa. E o governo repete a rábula do costume: avança com o impensável para depois recuar para o inaceitável.

Durante o fim de semana, o exército de comentadores-ex-líderes do PSD, alinhados com os ministros que usam Portas e as fugas para a imprensa para não ficarem mal na fotografia, ajudaram nesta encenação: que Portas está mais forte, que Gaspar já cede às suas exigências, que tudo está diferente. Está tudo na mesma. Até os malabarismos do CDS não mudam. Só há um problema: o espetáculo pode ser bom, mas não sei se vale o suficiente para estar em cartaz tanto tempo, sem um momento de improvisação, sem uma surpresa, sem qualquer espaço para a espontaneidade. Sempre o mesmo enredo, sempre a mesma cantiga.

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