escrever na merda


Tem que ser, dizem-nos os comentadores do regime fanado. Temos que empobrecer para mais tarde enriquecer. Temos que fazer sacrifícios. Olhem os ricos, coitados, que ficam mais ricos e não sabem o que hão-de fazer a tanto dinheiro. Olhem os ministros, coitados, que viajam em carros de luxo, alemães de preferência. E os camilos, e os neves, e os monteiros, e os saraivas, e os rosas, e os marcelos, todos nos vêm dizer que andámos a gastar demais, que estamos a comer demais, a medicarmo-nos demais, a divertirmo-nos demais, a viajar demais, a viver demais. Que é preciso ajustar a economia à produtividade dos portugueses, esse bando de calaceiros, desordenados, desleixados, uma tropa-fandanga sem eira nem beira. Temos que trabalhar mais e ganhar menos. Sócrates levou-nos à falência. Soares é uma velha carpideira. Os manifestantes são perigosos. Os invasores de escadarias e antecâmaras de ministérios, anti-democratas. As greves prejudicam a economia. Os velhos estão ricos, os funcionários públicos são milionários, os professores, uma cambada de incompetentes que tem de ir a exame outra vez, os desempregados, um peso, os doentes, um custo incomportável, e mostram números, quadros, gráficos, e cagam sentenças, e arrotam postas de pescada, servicinhos que lhes serão bem recompensados, em cátedras e catedrais da alta finança, no Banco de Portugal, quem sabe no Financial Times, correspondentes em Lisboa, uma honra, uma renda apreciável, e falam, e falam, e escrevem, e dão entrevistas, e põem-se em bicos de pés, para que os vejam, para que lhes bebam as palavras, para que acreditem que isto só lá vai a piorar, terá que ser. Traque ser. Uma estrépito mal cheiroso. Uma merda em letra de forma, em sound bites, em seminários, conferências, congressos, feiras e romarias dos peões de brega, dos testas-de-ferro, dos capachos e capatazes dos senhores do dinheiro, os ricos que ficam mais ricos para que os pobres possam ficar mais pobres.

Traques, digo eu.

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