11/03/16

resenha da festança do homem que se quis bragança

Fotografia de Alfredo Cunha, https://www.facebook.com/alfredo.cunha.1291?fref=ts
Ei-lo! Vinha a pé pela calçada, guiado pela sua boa estrela. Facto inédito e nunca visto desde os tempos em que o senhor presidente Teófilo, coitadinho que Deus já lá o tem, se deslocava de eléctrico do trabalho para casa e de casa para o trabalho. Os jornalistas, embevecidos, à beira de um orgasmo, entre eles o Paulo, olá Paulo!, esqueceram-se dos seus deveres, de estabelecerem ligação com a redacção para dar conta da inovação. Ão. Ão. Miau Fru Fru. O Baldaia baldou-se aos seus deveres, e o caso não foi para menos, mas recompensou-nos mais tarde com prosa de um lirismo e fervor tão tocantes que ficará para a História como um exemplo perfeito de preito entre amigos de peito, o presidente eleito e o jornalista rarefeito. A festa durou até às tantas, primeiro no Parlamento engalanado a rosas, que os cravos costumam cair, cheinho de discursos, abarrotadinho de aplausos, prenhe de beija-mão. Olha o rei de Espanha, o latagão! Olha o Xico Balsemão, o finório! Olha o Passos, o finado! Olha a fina-flor do entulho a encher o bandulho em comezaina à maneira. Olha os restos mortais do Luís Vaz e do Gama. Olha o presbítero ataviado a oiro e roxo que tudo inflama. E atentem bem na condecoração ao antecessor, um primor, de liberdade pois então, quem a tem chama-lhe sua e o medalhado sempre foi muito cioso das suas coisinhas, boas acções, herdades herdadas à sorte, sem sorteio. E o cocktail, que dizer do cocktail? Centenas de lustrados convidados, palmadinhas nas costas, parabéns para aqui, felicidades para acolá, o Baldaia baldou-se outra vez, estava a escrever o artigo, as ceroulas ainda húmidas, a voz ainda embargada, os olhos entaramelados, o pensamento nele, no homem que se quis Bragança, com tomada de posse a lembrar coroação, o furioso apogeu de uma carreira de professor, comentador, político, nadador, salvador da Pátria. Mais à noitinha, o arraial municipalizado, Mariza a fazer de Beyonce contra os canhões marchar, marchar. Podia ter sido melhor, ai pois podia, ide a ele as criancinhas que não chegaram para encher a praça, o frio pô-lo transido, Cid divertido, Ralph encolhido, Abrunhosa esmaecido, não tivemos direito a foguetes nem a fogo de artifício mas não perdemos com a demora que de artifícios e de fogos fátuos não nos livramos nem que Cristo desça à Terra, muito menos de simpatia a rodos, de afectos a ilustrados e analfabetos, esquerdistas e direitistas, elitistas e liberais, porque um homem que sucede ao cavaco empertigado, ao pau carunchoso, é isto: só pode botar boa figura. Sob o manto diáfano da fantasia. Com o ceptro e a coroa de uma república entontecida. Sempre, sempre à beira do orgasmo. De um ataque de nervos. De apagada e vil tristeza.
Teófilo Braga, fotografia de Joshua Benoliel, Arquivo Municipal de Lisboa


2 comentários:

OLima disse...

«(...) o senhor presidente Teófilo, coitadinho que Deus já lá o tem, se deslocava de eléctrico do trabalho para casa e de casa para o trabalho. (...)» Esta referência com sabor a pejurativo cai aqui muito mal. Teófilo Braga, açoriano, abdicou das mordomias que lhe queriam oferecer por respeito para com um país em falência.

Luis Filipe Gomes disse...

Agora cresce uma preocupação... A Primeira Dama? Ou a Dama com sorte se for esse o caso. Deveria-se estatuir um surfágio universal ou pelo menos nacional e por essas praias fora de lés a lés buscar a mais bela. Belém já tem uma estrela mas carece de uma Dama que brilhe para ela.