resenha da festança do homem que se quis bragança

Fotografia de Alfredo Cunha, https://www.facebook.com/alfredo.cunha.1291?fref=ts
Ei-lo! Vinha a pé pela calçada, guiado pela sua boa estrela. Facto inédito e nunca visto desde os tempos em que o senhor presidente Teófilo, coitadinho que Deus já lá o tem, se deslocava de eléctrico do trabalho para casa e de casa para o trabalho. Os jornalistas, embevecidos, à beira de um orgasmo, entre eles o Paulo, olá Paulo!, esqueceram-se dos seus deveres, de estabelecerem ligação com a redacção para dar conta da inovação. Ão. Ão. Miau Fru Fru. O Baldaia baldou-se aos seus deveres, e o caso não foi para menos, mas recompensou-nos mais tarde com prosa de um lirismo e fervor tão tocantes que ficará para a História como um exemplo perfeito de preito entre amigos de peito, o presidente eleito e o jornalista rarefeito. A festa durou até às tantas, primeiro no Parlamento engalanado a rosas, que os cravos costumam cair, cheinho de discursos, abarrotadinho de aplausos, prenhe de beija-mão. Olha o rei de Espanha, o latagão! Olha o Xico Balsemão, o finório! Olha o Passos, o finado! Olha a fina-flor do entulho a encher o bandulho em comezaina à maneira. Olha os restos mortais do Luís Vaz e do Gama. Olha o presbítero ataviado a oiro e roxo que tudo inflama. E atentem bem na condecoração ao antecessor, um primor, de liberdade pois então, quem a tem chama-lhe sua e o medalhado sempre foi muito cioso das suas coisinhas, boas acções, herdades herdadas à sorte, sem sorteio. E o cocktail, que dizer do cocktail? Centenas de lustrados convidados, palmadinhas nas costas, parabéns para aqui, felicidades para acolá, o Baldaia baldou-se outra vez, estava a escrever o artigo, as ceroulas ainda húmidas, a voz ainda embargada, os olhos entaramelados, o pensamento nele, no homem que se quis Bragança, com tomada de posse a lembrar coroação, o furioso apogeu de uma carreira de professor, comentador, político, nadador, salvador da Pátria. Mais à noitinha, o arraial municipalizado, Mariza a fazer de Beyonce contra os canhões marchar, marchar. Podia ter sido melhor, ai pois podia, ide a ele as criancinhas que não chegaram para encher a praça, o frio pô-lo transido, Cid divertido, Ralph encolhido, Abrunhosa esmaecido, não tivemos direito a foguetes nem a fogo de artifício mas não perdemos com a demora que de artifícios e de fogos fátuos não nos livramos nem que Cristo desça à Terra, muito menos de simpatia a rodos, de afectos a ilustrados e analfabetos, esquerdistas e direitistas, elitistas e liberais, porque um homem que sucede ao cavaco empertigado, ao pau carunchoso, é isto: só pode botar boa figura. Sob o manto diáfano da fantasia. Com o ceptro e a coroa de uma república entontecida. Sempre, sempre à beira do orgasmo. De um ataque de nervos. De apagada e vil tristeza.
Teófilo Braga, fotografia de Joshua Benoliel, Arquivo Municipal de Lisboa


Comentários

OLima disse…
«(...) o senhor presidente Teófilo, coitadinho que Deus já lá o tem, se deslocava de eléctrico do trabalho para casa e de casa para o trabalho. (...)» Esta referência com sabor a pejurativo cai aqui muito mal. Teófilo Braga, açoriano, abdicou das mordomias que lhe queriam oferecer por respeito para com um país em falência.
Agora cresce uma preocupação... A Primeira Dama? Ou a Dama com sorte se for esse o caso. Deveria-se estatuir um surfágio universal ou pelo menos nacional e por essas praias fora de lés a lés buscar a mais bela. Belém já tem uma estrela mas carece de uma Dama que brilhe para ela.

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