os políticos cabisbaixos

Por Baptista-Bastos
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António José Seguro parece ter obtido, na opinião pública e entre muitos dos seus camaradas, um aceno satisfatório, ao não aceitar as condições de Passos Coelho para o assim chamado "consenso alargado." Disse, grave e seco, que houvera uma "divergência insanável." Uma só? Não explicou qual, e seria bom que esclarecesse a curiosidade popular. E, também, ao dizer "divergência insanável", implicitamente admitiu que havia outras "sanáveis." Estes mistérios insondáveis servem de alimento seguro a uma Imprensa ávida da pequena intriga. Nada mais. Passos viajou, logo a seguir, para a Alemanha, a fim de carpir o desgosto nos braços robustos da senhora Merkel. Meigamente, a chanceler tranquilizou-o. "Não te apoquentes", teria dito. "Nós aguentamos-te à bronca."

Como na trova antiga, "tudo isto é triste, tudo isto é fado", adicionando-se-lhe a indignidade de Passos, subserviente, servil e amedrontado, ter ido à Alemanha pedir desculpas e apoio. Ele esquece-se, amiúde, de que representa o País e o que mais conveniente e virtuoso essa representação simboliza. Mas este homem possui, nas suas características elementares, algo de irritantemente emproado, e toma decisões como se não tivesse de dar conta a ninguém. As exigências democráticas são por ele ignoradas, como se tem provado no decorrer destes três anos de trágicas consequências.


A Europa está sob o domínio absoluto de uma Alemanha que obteve, através de esquemas económicos frequentemente infernais, e da passividade cobarde dos outros dirigentes europeus, o que não conseguiu em duas guerras. A França, de François Hollande, é uma miséria, devido à triste capitulação do seu Presidente "socialista", conhecido pelo "fósforo que não acende." A França da liberdade, igualdade e fraternidade, da filosofia, do pensamento cartesiano, de Montaigne, Montesquieu, Voltaire, Diderot, Sartre, Camus, Simone de Beauvoir, é uma melancólica mascarada da sua ancestral grandeza. A Itália, a Itália de Verdi, de Lampedusa, de Togliatti, de Berlinguer, de Visconti, Antonioni, Vittorini, Pavese, Moravia; a Itália da civilização, da Renascença, da beleza triunfal da estética e da ética, permitiu Berlusconi e o rol de calamidades que daí adveio.


A crise moral, intelectual e ideológica instalou-se, cedendo o lugar a uma "insignificância" que se instalou pela inércia e complacência de quem devia resistir pela cultura e pelo exemplo. Como é possível assistirmos a esse cortejo cabisbaixo que se desloca à Alemanha pedir as bênçãos a uma senhora notoriamente medíocre, que interpreta um papel que lhe não pertence e mais não é do que um títere de interesses obscuros?, como?


Parece que nada se discute e tudo se admite, com bovina resignação. É Passos Coelho, mas também outros, os outros, sem esquecer José Sócrates, que se descongelava quando Angela Merkel o beijava, com delícia não dissimulada. Notemos que, enquanto os países circundantes passam por dificuldades medonhas, a Alemanha prospera, conduzindo políticas e decisões que se reflectem, inclusive, na própria União Europeia. Os resultados estão à vista. E o que acontece na Ucrânia e na Crimeia não tem, apenas, um único responsável.


Em Portugal, parafraseando uma frase do velho cómico brasileiro Chacrinha, nada se cria, tudo se copia. É o país relativo, do O'Neill, a pátria desprezada do Bocage. A infinita e vil tristeza de sermos, dramaticamente, espectadores inertes.

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