as eleições em espanha ou como os povos cavam a sua própria sepultura
Eis mais uma vez os efeitos da política neo-direitista dos partidos socialistas europeus: depois de fazerem o servicinho aos seus patrões, os senhores que verdadeiramente detêm o poder, os do capital, os da banca, os das grandes indústrias do armamento, do petróleo, das farmacêuticas, são depostos por indecente e má figura. Os resultados eleitorais hoje em Espanha foram um desastre para o PSOE e, nas próximas eleições gerais, é certo e sabido que vão perder para o PP. E é aqui que eu quero chegar: porquê o PP? Porque é que os povos, em Portugal, em Espanha, em tantos outros países, não vêem outra alternativa aos seus partidos ditos socialistas do que os partidos ainda mais à direita? Esses povos que vêem os seus direitos sonegados, os seus rendimentos minguados, os seus futuros comprometidos, continuam a votar sempre nos mesmos, os mesmos que lhes pediram o voto e que, ao longo de anos e anos, lhes têm dado nada, rigorosamente nada.
Mais uma vez, agora também em Espanha, a abstenção foi elevada. Não me refiro já aos que não votam porque, pura e simplesmente, a política lhes passa ao lado numa inconsciência que lhes vai saindo cara; falo dos outros, os que se queixam dos políticos, que desprezam os políticos, que sabem que estes políticos não resolvem, antes agravam, os problemas do seu país, e que acham que o maior castigo que lhes podem dar é abstendo-se. Puro logro. Se não, veja-se o que tem acontecido: não votar é premiar os mesmos, sempre os mesmos - quando um se porta mal, e portam-se mal sempre, ganha o outro, e assim se vai sustentando este regime de alterne que dá tanto jeito aos maus políticos e aos seus patrões.
Até quando? Será que, no estado a que Portugal chegou, não aprendemos a lição de vez? Será que os abstencionistas com consciência de que as coisas vão mal e de que é preciso mudar vão finalmente decidir-se pelo voto? Falo do voto em branco, do voto nulo, do voto noutros partidos, do voto em partidos até agora sem representação parlamentar, qualquer voto que retire expressividade e representatividade aos partidos do poder não é um voto perdido. É um voto ganho.
Por isso sou contra a abstenção: porque uma coisa é o partido maioritário ganhar com 37% dos votos; outra coisa bem diferente é continuar maioritário com o mesmíssimo número de votos mas numa percentagem inferior, quanto menor melhor.
Quase metade do país não vota; se essa metade fosse votar, pelo menos a grande maioria lúcida mas descontente com a política, poderíamos estar perante uma verdadeira revolução eleitoral.
Não espero que o PSD ou o PS percam as eleições. Ainda não. Ganhe qual ganhar quem vai ganhar é o neo-liberalismo galopante que tanto tem feito estremecer os pilares da democracia e da justiça social em todo o mundo. Mas espero que tanto um como o outro percam força, representatividade, legitimidade para alterações de fundo ao nosso modelo de mínima, repito, mínima Justiça Social. Já lhe deram demasiados golpes. Golpes palacianos. Golpes parlamentares. Golpes baixos. Chega!

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