25/07/13

o cadáver que estrebucha



Por Baptista-Bastos

Para aonde vamos agora? A peregrina ideia do dr. Cavaco em criar o Compromisso de Salvação Nacional, expressão tão absurda quanto jerica, deu no que se esperava. E o resultado traduziu um modo de ver as coisas e de entender o mundo: imóvel, estático e extático. Sustentado por Belém, o dr. Passos Coelho, em Santa Maria da Feira, prometeu dias piores. Continuamos a não nos entender sobre o significado de expressões como História, movimento das ideias, conceitos de vida, de honra e de trabalho. O dr. Cavaco parecia aguardar que a tão falada ambiguidade de Seguro se traduzisse em pusilanimidade, numa espécie de fim sem fim que fizesse convergir duas ideologias, afinal não tão distantes uma da outra. Como se nada se questionasse, limitando tanto as doutrinas que todos concordassem com o tal "compromisso", carregando-o de um peso salvífico, que se opunha ao "pecado" no qual nos encontrávamos.

Não acredito na genuinidade nem na candura do dr. Cavaco. Admito mais a sua manha assaloiada, tantas vezes demonstrada e tantas vezes denunciada pelos factos. Em condições normais de cultura e de conhecimento ele nunca teria trepado a funções tão importantes na vida pública. Ou teria sido apeado logo-assim fossem reveladas as suas debilidades estruturais. É pior Presidente do que o foi Américo Thomaz.

Ao encenar este enternecedor "compromisso" sabia a soma: quais fossem as consequências, o Governo que aprova sairia do imbróglio, recauchutado ou não. Aceitaria Paulo Portas como este teria de aprovar Maria Luís Albuquerque e outros engulhos. A questão do carácter já se não coloca num Governo em que todos se olham de soslaio e rangem os dentes de raiva incontida.

Seguro foi empurrado para uma solução, não direi radical, mas concordante com aquilo que vinha a dizer há semanas. Pessoalmente, talvez estivesse mais atinente a outros balbucios, mas alguém o avisou de que poderia ser o coveiro definitivo do PS. Manuel Alegre divulgou, no jornal I, que Seguro lhe garantira não assinar o acordo; Mário Soares advertiu-o de que fraccionaria o partido; e José Sócrates, na RTP, insistiu na "verticalidade" do sucessor. Além de que o actual secretário-geral do PS é um homem do "sistema", claramente moderado e discretamente conservador. Na entrevista à SIC prometeu o indevido, questionado pela excelente Ana Lourenço, cuja doçura esconde a astúcia de grande perguntadora. O homem parece estar já inebriado pelos perfumes do poder e não conseguiu acautelar as palavras, que o acorrentam a responsabilidades insanas. Porque não é preciso ser a pitonisa de Delfos para se adivinhar que Pedro Passos Coelho e os seus são cadáveres sem disso se aperceber, e estrebucham, causando mais pena do que repulsa.

Continuo a perguntar e com perdão da enunciação feita: será António José Seguro o homem exacto para esta hora dramática da vida portuguesa?

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