o paradigma a combater

Por Baptista-Bastos

Já escrevi, noutro jornal, o "Diário de Notícias", uma prosa amena acerca da reunião do PSD na Quarteira. Uma crónica modesta, de usos e hábitos, sobre um encontro que já nem os seus promotores entendem como tendo práticos objectivos políticos. Uma espécie de grupo excursionista, no qual as senhoras se perfumam e abrem um pouco mais os decotes, e os senhores sorriem muito e trocam historietas e anedotas maliciosas. Nada de grave. Até o primeiro-ministro, na qualidade de secretário-geral do partido, surgiu como um homem acabrunhado e melancólico.

Nos últimos tempos, o PSD tem andado numa roda de infelicidades múltiplas e variadas, tantas que nem merece a pena enumerá-las. A reunião da Quarteira terá sido uma delas, mas aguarda-se mais. Não é de admirar que o pobre Passos Coelho esteja cada vez mais envelhecido.

O festim começou com a nomeação de Maria Luís Albuquerque, continuou com as quezílias internas; "maçadoras", diria José Miguel Júdice, e com a famosa frase do dr. Lomba, "inconsistências problemáticas", que correu do Governo com o seu colega do Tesouro, e acabou com a deformidade dos "briefings", cujo único mérito foi o de revelar a completa inépcia do seu principal protagonista.

Enquanto os membros do Executivo se entretinham com um brinquedo chamado Portugal, nada fazendo de visível para minorar a desgraça envolvente, o PS mergulhou na estratégia do absurdo; quer dizer: acentuando a desgraça com silêncios pesados ou declarações pueris sobre afirmações do Governo.

A doutrina do "empobrecimento", proclamada pelo desventurado Passos, continua em maré alta. Mais fome, mais desemprego, mais cortes nos já escassos vencimentos, nas pensões, nas reformas, e, para culminar esta trajectória de infortúnio, o ataque à cultura, à investigação, ao ensino. Estamos a atingir os níveis de miséria do Estado Novo, com uma classe dominante, constituída por duzentas famílias, sobreenriquecida, e um povo submetido a uma repressão atroz, que o entristece e esmaga.

Nunca é demais insistir no quadro deplorável a que esta nova crise do capitalismo nos conduziu. Os jornais e as televisões fizeram coro de aleluias com o medíocre aumento do PIB registado. O mérito não é do pobre Passos: resulta de uma ligeira melhoria das condições económicas de uma Europa dominada pelas forças mais retrógradas, mas que provoca o aumento do poder da Alemanha.

Já se erguem vozes, embora ainda tímidas, reclamando contra a hegemonia sem regras alemã, e a ineficácia dos Governos restantes. A Alemanha tem saído vitoriosa desta guerra do dinheiro e do desprezo pelos mais fracos, conseguindo, nas secretarias, o que não obteve em duas guerras mundiais, por si desencadeadas.

O Partido Popular Europeu, que dirige a Europa, não encontra adversários à altura da sua supremacia, cuja actividade chega a ser imoral. E aqueles partidos, como os socialistas, os democratas-cristãos e os sociais-democratas, que poderiam constituir uma força, pelo menos dissuasora, capitularam, perderam as convicções entregaram as decisões a outros, neste caso aos poderes anti-progresso.

Há tempos, o meu amigo João Lopes, que, sobre ser o excelente e reconhecido ensaísta de cinema, é um homem de bem e de cultura, dizia-me que faltava compaixão ao mundo. Estava à vista essa ausência fatal de compaixão, que conduz a todas as depravações do espírito de solidariedade. Que nos conduziu a isso? A destruição dos valores que formaram a civilidade, a virtude, o conceito do mundo como o lar do homem e da relação de uns com os outros. Esses valores foram substituídos pela mundialização económica e financeira que colocaram a descoberto as nossas mais vis formações. Em Portugal a imitação canhestra desse paradigma é àquilo a que estamos a assistir. Não devemos nunca resignarmo-nos a estes conceitos.

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