insulto à portuguesa


Amigos meus, vamos lá pôr ordem nesta bandalheira em que se transformou a internet, as redes sociais, os chats e os chatos que gastam o curto vocabulário no insulto anónimo. Tem razão quem se queixa, tem sim senhor, pelo menos em parte.

Vamos por partes. Chamar filho da puta ao extremoso rebento de uma senhora que nunca se deu à galderice é injúria. Apelidar de palhaço alguém que não provoca a mínima hilaridade, muito antes pelo contrário, é ultraje. Dar tratos de cabrão ao marido de amante e fidelíssima esposa, é enxovalho. Contudo, longe de mim concordar com as virgens ofendidas - e ele há tantas, senhores, ele há tantas! - quando o epíteto assenta que nem luva de pelica, ou preservativo de finíssima lubrificação, no alvo do aviltamento.

Vejamos. Que dizer de alguém que rouba a não ser que é ladrão, gatuno, larápio, ratoneiro, salteador, ladroeiro? E de quem mente? Pode-se-lhe chamar outra coisa que não seja aldrabão, mentiroso, impostor, embusteiro? E a quem se está nas tintas para o sofrimento humano a não ser isso mesmo, que é desumano, cruel, insensível, malévolo? E quem reúne todos estes defeitos e nenhuma virtude, pelo menos que tenhamos dado por isso? Como condensar todos os insultos num só? Será legítimo chamar-lhe biltre ou pulha ou safado ou torpe ou infame ou abjecto ou tratante ou meliante ou traste ou infecto ou canalha ou asqueroso ou patife ou bandalho ou baixo ou vil ou sacana ou sacripanta ou ignóbil ou repugnante ou indigno ou desprezível ou velhaco ou malandro ou delinquente? Serão isto agressões verbais ou, tão só, palavras que definem, de forma escrupulosamente exacta, letra por letra, tintim por tintim, o sujeito ou sujeita a quem nos estamos a dirigir?

Quanto a mim, até se pode usar mais do que um termo de uma só vez. Podem e devem chamar-se os bois pelo nomes, salvo seja, e quem diz a verdade não merece castigo. Di-lo o povo e, se a voz do povo é a voz de Deus, está arredada qualquer hipótese de contestação. Muito menos de represália, mesmo que o objecto do impropério fosse alguém de alcandorado estatuto.

O que nem sequer é o caso.

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