o monólogo do incensado

Manuel de Brito
Uma das minhas obras mais notáveis, pela mão de um dos meus sequazes, também Pedro, mas esse Mota, mas esse Soares, tem sido a recuperação da caridade como prática institucional. O Estado não tem por dever proteger os seus. Esse é trabalho do empreendedorismo social, seja lá o que isso for. Acabe-se com o RSI, o subsídio de desemprego, as pensões de reforma ou invalidez, deixemo-nos de sustentar chulos e madraços, passemos as nossas responsabilidades para as mãos de terceiros, criemos, num país sem Indústria, uma nova indústria, a da esmola, e Deus nos acolherá no seu esplendoroso seio. Continuemos a subsidiar a Santa Casa da Misericórdia de Santana Lopes e o Pingo Doce que, esses sim, precisam da ajuda do Estado para sobreviver e prosseguir a sua missão em defesa dos pobrezinhos, tanto como eu preciso que Santana Lopes me venha ungir ao Congresso, elogiando a minha obra em prol da produção de mais desvalidos que, por sua vez, irão recorrer à Santa Casa, Santa Casa essa que precisará, por seu turno, de mais subsídios que me apressarei a atribuir para que Santana me louve, para que Santana me incense, para que Santana me idolatre. Essas coisas da solidariedade, da equidade, da justiça social são muito bonitas mas são um luxo, não há verba para essas lérias com que só os canhotos se importam, essa esquerda perdulária, esses comunas esbanjadores. Os bancos sim, esses estão necessitados e todo o dinheiro é pouco para lhes acudir. Os portugueses percebem isto. Entendem que o assalto que lhes tenho feito é por uma boa causa. Eles, agradecidos e reverentes, voltarão a votar em mim. Nem que, para isso, tenha que lhes dar uma esmola antes das eleições. É isso. É o que farei. Eles não gostam de trabalhar, são calaceiros, mas adoram receber dinheiro em troca de nada. Adorar-me-ão, quer queiram, quer não, se não for a bem, vai a mal.

Tenho que sacar umas ideias ao Portas, esse é que a sabe toda.

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