10/05/15

não clara, claro que não


Não há dúvida, se as eleições conduzissem ao poder quem na verdade o merece, há muito que os povos de todo o mundo viveriam em ditadura. Os eleitores votam, salvo na Grécia, salvo num ou noutro país do "terceiro mundo", à direita, quanto muito num centro de socialismo engavetado, de hollandismo e de blairismo, de sócratismo e, talvez se Passos e Portas não conseguirem mais trunfos do que as mentiras e promessas que têm para dar, de costismo.

Veja-se o que se passa na Grécia e digam-me lá se exagero: o povo votou à esquerda (esquerda radical, dizem os defensores do mal) e eis que toda a Europa, socialistas engavetados incluídos, tudo tem feito para derrubar o Syriza e impedir que a Grécia se liberte do jugo da austeridade.

O Costinha da Câmara, que iniciou a sua caminhada para o poleiro com um discurso mais ou menos à esquerda - quem não se lembra dele no Congresso? - virou à direita enquanto o diabo, Portas e Passos esfregaram um olho. O pré-programa do PS propõe-nos a meiguice de uma austeridade melada, mas a gente vai dissecar as linhas e ler nas entrelinhas e o que vê, para além de promessas de moderação no roubo, é despedimentos mais facilitados, privatizações para continuar, impostos injustos no meio de outros que, é verdade, poderão contribuir para uma maior justiça social se forem aplicados, o que duvido.

Ontem, no Eixo do Mal, Clara Ferreira Alves (que gosto aliás de ouvir e ler) afirmou que o problema da esquerda é o seu eterno discurso de protecção aos pobrezinhos, que estes o que querem é deixar de ser pobres e não de serem amparados na sua indigência.

Ou eu percebi mal, ou a Clara se explicou mal, ou está enganada. Redondamente.

O problema da esquerda são os políticos que se dizem de esquerda e governam à direita. O problema da esquerda é o dinheiro que a direita tem para propaganda perpétua, os jornais são dela, as televisões são dela, a falta de escrúpulos, a faculdade de prometer, de mentir, de envenenar, são dela também quase em exclusividade.

A esquerda, D. Clara, a verdadeira esquerda e não a esquerda dos socialistas engavetados, não faz o discurso de protecção dos pobrezinhos, esse é apanágio da direita. Veja-se a actuação deste governo e do ministro Mota Soares, que mais não fizeram estes anos do que reforçar a caridadezinha, subsidiando-a, encorajando-a, ampliando-a, dando novos nomes, agora chama-se empreendedorismo social, a uma acção pautada pela hipocrisia, pela facilidade com que os ricos lavam consciências como os criminosos lavam o seu dinheiro.

Pelo contrário, D. Clara, a esquerda, a verdadeira esquerda e não a dos socialistas engavetados, luta pela modificação da sociedade através, entre outras coisas, da educação gratuita e universal, que permita a cada um poder lutar, independentemente dos seus meios e segundo os seus próprios méritos, para escapar à miséria onde teve a má sorte de vir ao mundo.

Mas, à direita, convém-lhe um povo deseducado, que lhe dê o voto, a ela ou aos socialistas engavetados, o que para o caso vem (quase) dar no mesmo por muito que se degladiem e se finjam inconciliáveis inimigos.

A esquerda, a verdadeira, não é pura nem isenta de erros ou pecados, alguns muito graves, outros ampliados desmesuradamente pela propaganda capitalista. Mas à direita, e aos socialistas engavetados, de quantas falcatruas, de quanta trafulhice, de quanta velhacaria não os podemos acusar? De quanto egoísmo, de quantas mortes têm sido responsáveis, de quanto sofrimento, de quanta injustiça? Quantos milhões ainda morrem hoje de fome porque os senhores da alta finança assim o decretam, com o entusiástico apoio dos seus lacaios ou, na melhor das hipóteses, com o beneplácito envergonhado dos socialistas engavetados?

1 comentário:

Luis Filipe Gomes disse...

Manuel Cruz, mais claro não podia ser!
Quem não se aclarou nem ficou esclarecido é porque já foi clarificado nalguma reuniãozita com porta fechada, em que só se entra com convite, tipo aquelas em que se vendiam taças plásticas com tampa. Lá entregam tachos não sei se com têstos. Chamam-lhe o clube bidabergue ou bidébergue ou coisa assim.