12/06/15

gostei do discurso de cavaco silva

No ano passado, foi assim.
Não li nem assisti ao discurso de Cavaco Silva no 10 de Junho. Não tive paciência e tenho um estômago de piriquito, sensível, dado a azias incapacitantes e enjoos demolidores. Não li nem vi mas gostei. Antes que se precipite a escrever um comentário feroz, daqueles cheios de insultos à minha pessoa, de filho da puta para cima tudo é possível, deixe que lhe explique a razão do meu parecer favorável às solenes palavras de Cavaco Silva que, repito, não li nem ouvi e só não tenho raiva a quem leu ou ouviu porque louvo quem tem o que eu não tenho nem quero ter, um inabalável espírito de sacrifício. 

Uma pergunta: se fosse responsável por uma agência de publicidade e precisasse de uma figura pública para patrocinar o produto que quer divulgar, escolhia uma personalidade detestada ou antes um ai-jesus das audiências? Escolhia a Manuela Moura Guedes, abominada por muitos, entre os quais eu me incluo que não sou de dar a outra face, ou um actor ou actriz de grande e consensual popularidade? 

Ora acontece que, no caso da discursata de Cavaco, a oposição o acusa de ter feito um elogio descarado à acção governamental e à brilhante situação deste lusitano torrão à beira-mar encravado. Por isso, responda-me agora a mais uma pergunta, prometo que é a última: sabendo que os índices de popularidade de Cavaco Silva andam pelas ruas da amargura, do beco do Carrasco ao Poço do Borratém e à rua da Triste-Feia, que pior - ou antes, que melhor - personagem para publicitar o governo da contra-revolução ainda em curso?

Mal comparado, ou se calhar até belissimamente comparado, era como pôr o Manel Palito, o ignominioso assassino, a anunciar na televisão um livro de apologia à bondade humana. Era tiro e queda!

Percebe agora porque é que gostei do discurso, sem o ter lido, sem ter assistido à funçanata, sem ter ouvido Cavaco, sem o ter visto para gozo dos meus olhos já cansados de ver o que não querem? Compreende-me, não compreende? Reparo agora que, tal como Passos, não cumpro as minhas promessas mais solenes, no meu caso de que lhe faria apenas duas perguntas e já vou em quatro. Puna-me. Obrigue-me a ler o discurso 100 vezes. Até o saber de cor.

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