a tomada de posse de passos coelho e paulo portas


Um excelente artigo, esclarecedor também, do blogue Aparelho de Estado, Expresso online:

Cavaco Silva iniciou a campanha eleitoral com uma comunicação ao país na qual apela a que se exclua do debate político todas as alternativas que não passem pela continuação dos sacrifícios e austeridade. Nem cinco minutos passados, Paulo Portas reforçava a ideia acrescentando que não é tempo de avaliar o passado ou apurar culpados. Por sua vez, Passos Coelho em artigo publicado no Wall Street Journal , não hesitava em declarar que o PSD votou contra o PECIV "não porque foram longe demais, mas porque não foram suficientemente longe".
Durante esta semana também ficámos a saber que o défice considerado não será o que foi anunciado. A obrigatoriedade de inclusão no cálculo do défice das dívidas das empresas públicas de transporte e dos prejuízos nacionalizados da banca privada (entre BPN e BPP), agravam as contas. Para o rol desta economia de casino ainda não entra o resto das empresas públicas, uma solução final para o BPN e BPP, o (quase secreto) aval bancário do Estado concedido ao BCP e uma boa parte das Parcerias Público-Privados (PPP's). Quando o Presidente da República fala de credibilidade, verdade e rigor, é bom que não nos esqueçamos que Cavaco tem a sua assinatura em quase todos os mais ruinosos negócios para o país das últimas três décadas, não sendo por isso de espantar que não queira falar de culpados.

Muitos repetem incessantemente que "vivemos acima das nossas possibilidades", ainda que até 2008 tivéssemos um défice e dívida pública dentro da média europeia ou que "os nossos bancos são robustos", ainda que sejam pródigos em casos de polícia, offshores e continuem a viver à sombra de um Estado sempre pronto para libertar de impostos os lucros astronómicos e tomar a seu cargo os prejuízos. Poucos são os que se interrogam sobre o que sucedeu durante estes últimos dois anos, pois perceber-se-ia que nada tem a ver com excessos ou irresponsabilidades da maioria dos cidadãos.

Para o Presidente da República, as medidas de austeridade e o FMI são o futuro "construtivo", "realista" e "credível", ainda que na Grécia e Irlanda apenas tenham piorado a situação económica e social obrigando os dois países a mergulhar numa profunda recessão. Por seu lado, as agências de rating, especulam sobre a dívida declarando que Portugal deve pedir ajuda, ainda que continuem a baixar os níveis das "ajudadas" Grécia e Irlanda.

Entretanto, na comunicação social, Passos Coelho e Portas já são apresentados como futuros mentores do governo que se segue e as sondagens atropelam-se a dar-lhes maiorias. Anunciam-se fusões de Ministérios e Secretarias de Estado, desdobram-se apelos em prol de uma União Nacional que inclua o Partido Socialista e fazem-se prognósticos sobre pactos de regime para que consigam impor mais medidas de "austeridade".

Ainda que na Grécia, Irlanda e Islândia os partidos de esquerda tenham obtido significativas subidas eleitorais, PCP e BE, aparecem nas sondagens com diminuição das intenções de voto - o que a concretizar-se seria o primeiro caso nos países que partilham a nossa situação. Ainda que a maioria das propostas que apresentam se aproximem das que estão a ser implementadas no país que melhor está a fazer face a esta crise, a Islândia, elas são silenciadas ou ridicularizadas pela maioria dos órgãos de informação. Ainda que milhares e milhares de trabalhadores tenham estado envolvidos, durante o mês de Março, em inúmeras manifestações, protestos e greves contra as políticas de austeridade criando um clima de contestação social nunca visto, na análise política mediática, nas sondagens e no discurso político dominante, esse país parece não existir.

A intervenção pré-eleitoral do Presidente da República e os sucessivos apelos a pactos e alianças de regime, são ataques à democracia. As campanhas eleitorais servem para que se confrontem projectos políticos e não podemos ignorar/silenciar quem se opõe ao caminho mais simpático ao Presidente da República ou quem se propõe averiguar responsabilidades não pagando as dívidas da economia de casino. A estrutura de poder que nos governa há mais de 30 anos, procura construir um cerco em torno do seu programa de recessão económica que declara como inevitável, ainda que as propostas e programa político dos que estão fora deste cerco, se estejam a revelar bastante mais bem sucedidas para lidar com esta crise.

Perante o abismo será que o povo escolherá dar Passos em frente?

TIAGO MOTA SARAIVA

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