um safanão aos jornalistas


Então isto faz-se? Morre gente nas urgências, morre gente por falta de medicamentos e os senhores atrevem-se a noticiar tudo isso, dando pasto aos videirinhos do reviralho? A partir de hoje, só podem noticiar as virtudes deste governo, a descida do desemprego, o crescimento da economia, o aumento das exportações, a melhoria das condições de vida da população em geral. Se há gente a morrer nos hospitais é porque tinha que ser, se há gente a passar fome é porque quer, se há gente desempregada é porque não gosta de trabalhar, se há gente a receber o salário mínimo é porque não merece mais, se há gente que perdeu subsídios é porque não os merecia, se há velhos com frio é porque querem poupar energia. Noticiar casos como estes é estar contra o governo da Nação, contra mim e contra Merkel, essa benemérita que tão generosa tem sido para connosco, de uma paciência e bondade a exigir canonização. Se os senhores jornalistas querem vender jornais, falem de Sócrates, dos crimes de Sócrates, dos roubos de Sócrates, da governação de Sócrates que deixou este país à beira da bancarrota, quando cheguei ao poder não havia dinheiro para mandar cantar um cego, quanto mais para curá-lo. Esse sim, Sócrates e não o cego, merece prisão perpétua, uns açoites, a fogueira. Se querem vender jornais, falem da Casa dos Segredos, das gajas e dos bólides do Ronaldo, da separação da Pilita de Medeiros Aguiar, da nova mansão de Chuchu Ribeiro da Silva, do casamento de Xaxão de Meneses e Cunha, do desempenho brilhante de Pitá de Andrade na nova telenovela, do afamado médico que dá tareia na mulher, dos segredos e escândalos da high society, do luxo e do lixo da fina-flor portuguesa. Disso sim, os portugueses gostam. Sexo, decoração, culinária, puericultura, fotografias, muitas fotografias para quem só gosta de ver bonecos e ler as gordas . Tudo menos cultura. E quem diz cultura diz política. E quem diz política diz economia. A assim não ser, farei um telefonema para os vossos patrões, exigirei retaliações, clamarei vingança.

Comigo, ninguém brinca enquanto brinco aos governantes.

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