os decretos dos nossos pesares




Por Baptista-Bastos
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Nenhuma revolução se faz por decreto. Mas há decretos que causam sofrimento, desolação e miséria. Estou a lembrar-me, claro!, do que nos têm feito, através de decretos, Pedro Passos Coelho e os seus. E esta evidência adveio-me, veja o meu Dilecto, de uma releitura de "A Revolução Francesa", de Henri Dejean. Possuo muitos livros sobre aquele período, que alterou, substancialmente, a Europa e o mundo. E relembro as frases de Saint-Just, na Convenção de Paris: "A República Francesa proclama que a felicidade é possível entre os homens." Ou: "A República Francesa proclama que a liberdade é uma ideia nova na Europa." Estas frases sobressaltam, ainda hoje, quem teme a mudança das coisas e dos hábitos. A verdade, porém, como escreveu Carlos de Oliveira, "não há machado que corte a raiz ao pensamento", e as modificações que se registam, no nosso continente, querem dizer alguma coisa. As pessoas, milhões delas, estão cansadas deste rodízio que conduz ao poder os mesmos de sempre.

Como no Antigo Regime, os que beneficiam das desigualdades e das iniquidades põem-se em movimento, tentando, desesperadamente, salvar os seus privilégios, amiúde indecorosos. "Todas as fortunas assentam num crime", escreveu Balzac, monárquico e legitimista, e muito longe de ser apodado de simpatizante da revolução. E, na verdade, a frase dispõe de um fundamento que a História valida com factos.

A Europa atravessa uma crise que parece abalar os fundamentos que justificaram a sua ética e a sua moral. Uma onda de regressão, com os seus acólitos estipendiados, as suas traições abjectas e as suas capitulações sórdidas, tem vencido os valores da solidariedade, da igualdade e da fraternidade que marcaram os nossos destinos e a nossa História. O Papa Francisco tem-se referido a isso com infatigável insistência. Ele tem assistido à depredação dos princípios que a própria Igreja defende (às vezes, seja dito, com pouca força e, até, cumpliciando-se), através de uma ofensiva geral do capitalismo, que tem sacudido os alicerces da civilização, com absoluta indiferença daqueles que deveriam ser os guardiões desses princípios.

Mas não creio que os vencedores do momento o sejam para sempre. Os povos não se adaptam às mordaças e à repressão, neste caso mascaradas de uma ideologia que pretende ser única e indiscutível. A luta contínua não é somente um estribilho gritado como que para fazer reunir forças e vontades. É muito mais do que isso. É a representação do próprio movimento da História. Não capitularemos, aqueles que acreditam na grandeza dos homens e no poder da liberdade.

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