já não temos mão nisto


Leio e não creio. Quer dizer, crer até creio, já creio em tudo, até na reencarnação de Salazar, via Passos, ou de Hitler, via Merkel. Então não é que, sabe-se agora, é preciso licença para usar tripé na via pública, seja para máquina de fotografar ou de filmar?

O regulamento, com coimas que não são leves, é de 1991. Mas só agora, no afã da caça à multa para atafulhar os cofres já cheios, no dizer de Albuquerque, vale tudo: martirizar o contribuinte com multas e coimas e taxas e arrestos e penhoras; subir impostos a alturas nunca vistas; obrigar o cidadão a pagar todos os serviços do Estado, para o qual já pena com o fisco à perna, seja a Saúde, a Educação ou o mais simples documento que vá solicitar a uma repartição para entregar noutra repartição porque o simplex acabou quando Sócrates finou, se é que com Sócrates o simplex funcionou.

Voltamos, não tarda nada, aos tempos do velho senhor de Comba Dão de triste recordação: não se pode utilizar isqueiro sem licença na vida pública sob pena de coima; mais do que duas pessoas é um ajuntamento proibido; escrever em jornais só com rigorosa vigilância. E quanto às parelhas em busca de recato para amainar os assanhos da carne, alto e pára o baile! Cuidado com o que se faz na mata, por detrás da moita. Atenção ao que se desaperta ou desabotoa, alcinha de sutiã ou impaciente braguilha. Para dentro de um carro, por mais camuflado que esteja na noite escura, tudo se vislumbra e deslumbra não sendo esse o intento do involuntário voyeur. Haja tento com o que se mete e com o que se tira em vão de escada escusa, mão naquilo ou aquilo na mão dão lugar a onerosa multa, se for aquilo naquilo, aquilo atrás daquilo ou a língua naquilo então a pena redobra e implica detença e chilindró, se visita de médico ou poiso duradoiro depende da ofensa, se agravada ou ligeira, ligeira nunca será sendo atentado ao pudor o molesto crime, seja língua na língua, boca com boca, mão na mão, aquilo na boca ou a boca naquilo, língua naquilo ou aquilo na língua, a boca na coisa ou a coisa na boca, a mão naquilo ou aquilo na mão, aquilo na coisa ou a coisa naquilo, aquilo com aquilo ou coisa com coisa, perdão, está mais que visto, não há. Não há comiseração. Preferível será, enquanto é tempo, encolhermos a língua, cerrarmos os lábios, aferrolharmos a boca, retraírmos a mão, resguardarmos a coisa e recolhermos aquilo em virginal recato, na ignorância dos inocentes e na inocência dos ignorantes.

Isto está de fugir a sete tripés! Já não temos mão naquilo: Passos, Portas, PSD, CDS, Cavaco, Neoliberalismo, Neofascismo, Merkelismo, seja o quer for não é coisa boa, onde se possa pôr a mão nem andar de mão na mão. Livra!

Comentários

Helena Monteiro disse…
texto excepcional como é habitual; caramba isto está do pior, como vamos sobreviver a este chiqueiro jamais imaginado?! ahhh, custa-me dizer, mas eu sou um robot! estou a entrar em modo robótico porque os meus neurónios estão a ficar leofilizados (e isto não tem nada a ver com o jesus ir para o sporting, fónix, que má notícia!)
obrigada manel!
hm

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