a grande reinação ou o novo conto para crianças



Era uma vez um jovem que, de ambição desmedida, embicou que haveria de governar um pequeno país chamado Portugalândia. Se bem o pensou, pior o fez. Com o precioso auxílio da servil soldadesca, cujo flamejante fardamento laranja se avistava de impossíveis lonjuras, e contando com a cumplicidade ou cobardia de amanuenses, arautos, trovadores, cronistas, alquimistas, feiticeiros e bobos da corte, logrou sentar o augusto traseiro em tão almejado trono.

Fervoroso discípulo do xerife de Nottingham, de seu nome Sir Anthony Saltunluck, o reinado do novo monarca todo absoluto foi marcado, desde a primeira hora, pela negação de todas as promessas que tinha feito, de todas as garantias que tinha dado. Apropriando-se dos bens dos seus súbditos, menos os dos mais ricos a quem acalentava e protegia, aumentou impostos, destruiu escolas e hospitais com a sanha de uma alma danada, espalhou a fome e a miséria onde tinha prometido semear prosperidade e alegria.

Orgulhoso dos seus feitos, marcados por invulgar crueldade, sentava-se todas as noites diante do toucador e, penteando com cuidado a melena que lhe ia escasseando, perguntava: "espelho meu, espelho meu, haverá alguém mais malvado do que eu?"

Nem sempre, no entanto, os contos para crianças estão destinados a ter um final feliz. Armada de forquilhas, ancinhos, laranjas podres, o que lhe viesse parar às mãos, a populaça, farta de roubos e de insultos, destronou o rei.

Tinha-se acabado a reinação.


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