ando a ver tudo negro, menos as moscas na merda fresca

Ah, senhores! Consta para aí que existe uma lista VIP que protege esses mesmos, os VIP da Nação, de coimas, chatices e ameaças provindas do Fisco, a catedral do confisco. Acho bem. Os poderosos, mesmo que de pés de barro e mais efémeros que moscas em merda fresca, protegem-se uns aos outros, é deles essa primazia, esse direito que o Direito não lhes deu mas a que a Direita obriga, como a noblesse. O que me chateia é que os restantes, os que não estão na lista VIP, estão todos, de A a Z, na lista negra. Não escapa nem um. Porque se ainda não deves podes vir a dever, se não deves tu deve o teu pai, tenhamos por princípio que são todos malfeitores, devedores, incumpridores, e não nos vamos dar mal com isso. E é vê-los, senhores, aos da lista negra, a serem mortificados com notificações de calotes vários, umas atrás das outras, com ultimatos, com penhoras, com processos em cima porque, nestes casos, a Justiça funciona, olá se funciona, bem oleada, afinada, atinada e direita, porque é à direita que se sentam os eleitos e os ungidos, entre mugidos de vacas leiteiras e urros de bestas parideiras de miséria e desencanto.

E que dizer da InSegurança Social, senhores? Então esses, além de imitarem o Fisco na sua petrificante insensibilidadoe, desatinam, não atinam nem por nada. As contas alegadamente em dívida não batem certo umas com as outras, ora agora são mil, ora agora são dez mil, não se consegue chegar à fala com eles, são dias perdidos percorrendo as vias sacras da instituição, horas agarrados ao telefone a ver se é desta, e nem novas nem mandados, cada tiro, cada melro, e lá vai penhora, e lá vai multa, e lá vão juros de mora que, hora a hora, o défice melhora e todo o cêntimo é preciso para o ajudar a baixar. Passos prometeu, nós cumprimos, doa a quem doer, custe o que custar e aos da lista negra vai custar muito e doer ainda mais.

Ando, ultimamente, a ver tudo negro. Mas consigo, ainda assim, vislumbrar as moscas na merda acabada de obrar, na obra feita: a economia que melhora, os bancos que progridem, as privatizações que avançam, os ricos que açambarcam, os pobres de mão estendida e as vítimas do novo filão, a nova mina de diamantes, a nova galinha dos ovos de ouro, os escorraçados do Fisco.

Que petisco, senhores, que petisco!

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