procissão no adro

Por Fernando Dacosta
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Os dirigentes do país acostumaram-se a empurrar, nas alturas de crise, as responsabilidades por ela para as vítimas dela. É o seu estratagema de impunidade.

Insidiosamente, os trabalhadores vêem-se, assim, invectivados por não produzirem, os desempregados por não se haverem modernizado, os jovens sem colocação por se mostrarem ávidos de consumismos, os reformados por adornarem a sustentabilidade da previdência social, os doentes crónicos por serem viciados em fármacos e intervenções cirúrgicas.

Tornou-se hábito aparecerem em público uns senhores de rostos severos a admoestarem-nos por «gastarmos mais do que ganhamos», por «ganharmos mais do que produzimos» e por «vivermos acima das nossas possibilidades». Não se sabe, entretanto, o que isso realmente significa. Temos, como consequência – e ainda a procissão vai no adro –, falências e desemprego, miséria e aviltamentos em tsunami.

O pequeno comércio (sustentáculo dos núcleos populacionais das cidades) e a pequena agricultura (idem para os dos campos) rebentam, inanimados. Mais de um terço da população vive já ao nível da pobreza.

Em número crescente, crianças vão em jejum para as escolas, idosos deixam de tomar medicamentos, multidões dormem ao relento, semi-envergonhados comem de caixotes do lixo. Em muitas casas volta--se, como há 50 anos, a cozinhar em fogareiros a petróleo, a tomar banho uma vez por semana, a ingerir apenas sopa às refeições, a comprar roupa na Feira da Ladra.

Irónicos, os mais vividos reduzem o que se ensaia a remake de neo-Estado Novo, neofascismo a dobrar indomados.

Há "muita gente", dizia Vítor Rego, "a sentir-se bem no mal e mal no bem".

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