tortura à democracia



Por Luís Rainha

O início da entrevista de Sócrates à Antena 1 cirandou em torno do livro lançado na esteira do famoso mestrado parisiense. Às perguntas da respeitosa jornalista, lá foi ele respondendo com um rosário de inanidades; fraquito, para quem terá passado largos meses a estudar a história e a práxis da tortura.

Acredite-se ou não, a cumplicidade do então primeiro-ministro na exportação de suspeitos de terrorismo para países fornecedores de tortura em outsourcing ficou incólume. A sério: a perguntadora não se lembrou de questionar o indignado mestre sobre os dias em que autorizou formalmente, mas em segredo, a passagem de “repatriados” pela base das Lajes. Sabemo-lo hoje, não por mea culpa socrática, mas pela pena do embaixador dos EUA, via Wikileaks.

Que tudo se possa fazer e dizer sem castigo nem enxovalho público é uma das ferrugens que corrói a nossa vida democrática. Vamo-nos habituando à recuperação de todos os figurões, à reciclagem dos monos mais frustes. E são muitos: da verruga Portas, que não pára de inchar no rosto do Estado, imune a escândalos e achaques irrevogáveis, ao Presidente, que teima que ganhar um monte de dinheiro com acções do BPN equivale a nunca ter tido qualquer relação com o banco maldito. Agora até temos um cardeal a entoar o cantochão da nossa suposta inviabilidade financeira, esquecendo, por exemplo, que a sua igreja detém milhares de imóveis e não paga IMI sobre um só.

Quando os poderosos perdem a vergonha, logo os humildes perdem o respeito.

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