esperteza saloia

Por Nuno Saraiva
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As últimas semanas têm sido férteis em exemplos de como a esperteza saloia se tornou prática maior da política nacional.

Veja-se, por exemplo, a decisão de pagar em duodécimos, já a partir de janeiro, os subsídios de férias e de Natal. Todos sabemos que será no primeiro ordenado de 2013 que os trabalhadores vão sentir a primeira "marretada" do "assalto fiscal" em que assenta o Orçamento do Estado para o próximo ano. Por bondosa que possa parecer, a intenção é, tão-só, através de um efeito ilusório, fazer crer à comunidade que, afinal, o empobrecimento não é tão drástico como parecia à primeira vista.

Com medo da rua e das convulsões sociais que inevitavelmente acontecerão quando as famílias sentirem no bolso a falta de dinheiro, o Governo decide, de forma caridosa, mitigar o esforço desumano a que os contribuintes estão sujeitos distribuindo por doze meses as migalhas do 13.º e do 14.º meses, como se quem trabalha não tivesse direito a estas retribuições. E nem sequer vale a pena lembrar, mais uma vez, o que havia sido dito perentoriamente por Pedro Passos Coelho, nos idos da campanha eleitoral, quando confrontado com a hipótese de acabar com o subsídio de Natal: "Isso é um disparate!"

Mas, mais grave do que esta tentativa de atestado de estupidez passado ao povo em letra de lei, é o verdadeiro propósito, não assumido, de quem toma decisões. Em outubro de 2011, Miguel Relvas afirmava, com a convicção e sabedoria habituais, que há "muitos países da União Europeia que não têm 13.º e 14.º meses". Passado pouco mais de um ano, eis que o Governo, à socapa e na esperança de que ninguém perceba, se prepara para, com a diluição dos subsídios em 2013, acabar com eles de uma vez. A isto chama-se esperteza saloia!

Podia ser apenas um ato isolado, ou um exercício infeliz da ação governativa. Mas não é.

Outro exemplo de "chico espertice" é o da reforma administrativa imposta pelo programa de ajustamento. Decidiu o Governo - o mesmo que sempre quis afirmar--se mais troikista do que a troika -, pela tutela do ministro Relvas, avançar para a fusão e extinção compulsiva de freguesias, mantendo intocáveis as câmaras municipais. A reforma, deixada assim a meio caminho, além de representar uma violação flagrante do memorando de entendimento em cuja quinta avaliação ficou expressa a obrigatoriedade de reduzir "significativamente" freguesias e concelhos, é também reveladora de que a célebre afirmação "que se lixem as eleições!", proferida um dia pelo primeiro-ministro para assegurar que não governa em função da popularidade, não passou, afinal, de uma balela.

Quem pensava que esta maioria era totalmente subserviente à troika enganou-se. O Governo é bem capaz de lhe fazer frente, como se comprova, mas só quando estão em causa os votos e os todo-poderosos aparelhos partidários. A este modo de atuar chama-se, não há outra forma, esperteza saloia.

E, como não há duas sem três, a gestão do dossiê de privatização da RTP não podia deixar de ser conduzida em coerência com tão nobres pergaminhos. Bem no meio do ruído do último capítulo da chamada "novela das imagens", eis que surge um novo plano para a alienação da televisão pública. Nuno Santos foi ao Parlamento reafirmar, perante os deputados, o que já antes tinha dito: que fora alvo de um saneamento político, que era malvisto pela tutela por ser contra a privatização e por, durante o seu consulado como diretor de Informação, ter feito aquilo que se lhe exigia: pôr a RTP a dar notícias e não a ser notícia. Foi o que aconteceu, por exemplo, com a polémica em torno da licenciatura do dr. Relvas, ou com o escrutínio sistemático da governação. As mesmas afirmações que uma semana antes não justificavam a abertura de um processo disciplinar, ditas na Assembleia da República acabam a dar origem a um inquérito com objetivo de despedimento.

Porventura, o maior pecado de Nuno Santos - e não me pronuncio sobre a cedência de imagens à polícia, cuja apreciação neste contexto é irrelevante - foi ter contribuído para o ruído, pois foi no meio desta polémica que, discreta e sorrateiramente, se anunciou a intenção de privatizar 49% do capital da RTP. Já não se trata de alienar um canal, como está no programa eleitoral do PSD e no Programa de Governo, ou de concessionar o serviço público a privados. O plano agora é vender metade da televisão pública.

Como muito bem previu quem desenhou esta estratégia, no meio do debate sobre o evidente saneamento político de Nuno Santos ninguém questionou ou sequer se apercebeu da solução final para a RTP.

A isto chama-se, como é óbvio, esperteza saloia. O resto é conversa da treta!

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