de tão tolerantes, parecemos parvos

Vem hoje na Visão, escarrapachada logo na capa, a prova de que a lista VIP existiu mesmo. Não há que enganar, alguém anda a mentir e até consigo adivinhar quem. E tudo isto logo a seguir ao caso Tecnoforma, porque foi preciso cortar as vazas a quem tivesse a veleidade de andar a espiar a grande vida e a obra maior do primeiro-ministro em exercício.

Mas os portugueses são tolerantes. Aceitam tudo. Que lhes desçam os salários e subam os impostos. Que os tratem como párias, se desempregados, ou como um peso morto para as empresas, se ainda tiverem a sorte de estar a trabalhar. Que se paguem salários de 600 euros a licenciados. Que se menospreze o funcionalismo público. Que se reduzam pensões. Que se aumente a pobreza e as desigualdades. Que se recusem abonos de família e o RSI a quem merecia de facto recebê-los. Que se privatizem sectores primordiais a preços da uva mijona. Que morra gente nas urgências devido aos cortes na Saúde. Que se tenha um Crato na Educação e uma Teixeira da Cruz na Justiça. Que se desrespeitem os portugueses nos seus direitos mais básicos. Que se atente contra a Constituição sem que nada aconteça.  Que se minta para ganhar eleições. Que se continue a mentir todos os dias, durante quase quatro longos, penosos anos. Que nos aconselhem a emigração, que nos chamem piegas, que nos tomem por tolos. Que sejamos representados por quem humilha Portugal e se verga às ordens de Merkel com um sorriso manteigueiro de aluno bem comportado. Que nunca se tenham tocado nas PPP, antes se tenham criado novas. Que se tenha querido destruir Fundações de mérito, enquanto outras continuam, de vento em popa, a sugar dinheiro do Estado. Que se tenha afundado a economia em nome de um ajustamento que, se alguma vez existiu, nunca ninguém o viu. Que não se tenha feito uma reforma do Estado ao serviço de todos os cidadãos e não de uma "nata" privilegiada e, pelo que se vai sabendo, pouco séria. Que nos tenham feito pagar, por um preço tão elevado, os desmandos da finança de casino. Que nos tenham amedrontado com segundos resgates, a saída do euro, a bancarrota. Que nos tenham dito que andámos a viver acima das nossas possibilidades ou que Sócrates tenha sido sempre o bode expiatório, quando outros culpados houve e bem maiores do que ele. Que se tenha ido mais longe do que a troika. Que não se tenha posto a troika no seu lugar. Que tenhamos acolhido os senhores da troika não como os mangas-de-alpaca que são mas como estadistas com plenos poderes sobre Portugal e o seu povo. 

De tão tolerantes, perdemos a dignidade, empobrecemos e continuaremos, tantos de nós, a votar na mesma camarilha que nos trouxe até aqui. De tão tolerantes, não aceitamos governos à esquerda não vá expropriarem-nos a casa, o carro, o cão. De tão tolerantes, toleramos a corrupção, o roubo descarado, a trafulhice, a aldrabice, a vigarice.

Somos, tal como no passado fomos, atentos, veneradores e obrigados. A bem da Nação.

Comentários

Lufra disse…
Vai chamar o chaves!

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