os privilegiados segundo os padrões de pedro passos coelho

Com toda a basófia, armado ao pingarelho, Passos Coelho disse ontem na Madeira (deve ter sido por contágio com a truculência do vice-rei das ilhas) que pode bem com aqueles que estão contra o governo. Uma nova versão, revista e actualizada, da frase bombástica que proferiu no Verão passado, "que se lixem as eleições". Mas, arrogante como qualquer dirigente que se preze de um Estado autoritário, com a insensibilidade de quem se julga com cargo para 48 longos anos (a esperança de vida é maior agora do que no tempo de Salazar), disse mais: disse que quem está contra ele não são os mais humildes, mas quem está a perder os privilégios (subentende-se que adquiridos ilegitimamente, somos um povo de foras-da-lei). Passos devia dizer isto, cara a cara, aos quase 1.400.000 portugueses que têm o privilégio de não ter emprego, os privilegiados que vivem de esmolas, os privilegiados que comem Nestum ao jantar, os privilegiados que não têm com que jantar, os privilegiados que tiraram os filhos da escola, os privilegiados que mandam os filhos para a escola com fome, os privilegiados que tiveram que largar as casas onde viviam, os privilegiados que vendem as poucas jóias de família, os privilegiados que deixaram de ir ao teatro e ao cinema, os privilegiados que vivem à luz do petróleo e carregam bidões de água para casa, os privilegiados que cada vez mais acorrem à sopa dos pobres, os privilegiados que se suicidam e os privilegiados que morrem de morte lenta, numa lenta agonia de desespero e miséria.

Passos não se rala com esses privilegiados. Aliás, nem sequer pensa neles. Por mais que protestem nas ruas. Porque até isso, mais dia, menos dia, lhes será negado. Sim, que se lixem as eleições. Ele sabe do que fala. Avisou-nos em devido tempo. No Verão passado.

Fotografia: http://samuel-cantigueiro.blogspot.pt/

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