barroso, o mordomo

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Por Daniel Oliveira

Quando João de Deus Pinheiro abandonou o cargo de ministro dos Negócios Estrangeiros, sendo chutado para a Europa e terminando assim a sua carreira política nacional, o seu ambicioso secretário de Estado da Cooperação, entrado na política com o alto patrocínio de Santana Lopes, teve, na sombra, um papel decisivo. Chegou a ministro, uns anos mais tarde a líder do PSD e, graças à inesperada demissão de Guterres, a primeiro-ministro.

A história deu ao ex-maoísta Durão Barroso uma dessas oportunidades históricas que muda a vida dum homem. George Bush precisava de exibir os seus aliados europeus na injustificável ocupação do Iraque que se preparava, baseada num conjunto de mentiras. Aznar e Blair foram os únicos que aceitaram participar numa encenação que pretendia esconder o quase absoluto isolamento dos EUA nesta aventura. Era necessário um palco longe do mais que seguro protesto popular - uma ilha era o ideia -, onde houvesse uma base militar americana que garantisse a segurança do presidente - as Lajes, perdidas no meio do Atlântico, eram excelentes -, num país com pouca relevância política e militar - Portugal encaixava - e com um governo disposto a oferecer a sua imagem a uma guerra absurda só para mostrar serviço. Para o primeiro-ministro português, era a oportunidade de aparecer na fotografia, mesmo que apenas como mordomo - na maioria das fotos publicadas nos principais jornais internacionais ele ficou de fora. E foi nesse momento, pela porta de serviço, que Barroso conseguiu o sonho de qualquer bom mordomo: ser igual aos senhores que bajula.

Quando foi preciso escolher um presidente para a Comissão Europeia, as potências europeias procuraram alguém que, pela sua irrelevância política, não viesse a ser um perigo para o poder alemão e francês. Como segunda ou terceira escolha, encontraram o primeiro-ministro que tão bem recebera nas Lajes. A posição que tivera sobre o Iraque era indiferente. O que contava era a sua disposição para moldar todas as suas convicções aos interesses de quem pudesse alimentar as suas ambições. Ao contrário doutros, Barroso aceitou interromper o seu mandato no governo português, entregando o poder ao seu companheiro Santana Lopes. Chegado a Bruxelas, não desiludiu. Até do apelido que sempre usara (Durão), por não ser de pronuncia conveniente, ele abdicou.

Em Portugal, muitos foram os que apelaram ao provincianismo nacional, dizendo que viria a ser benéfico para Portugal ter um português a presidir a Comissão. Isso dificilmente seria verdade, se o presidente cumprisse a sua função, que era a de zelar pelos interesses da Europa e não dum Estado em particular. Mas seguramente não aconteceria com Barroso. Ele trabalharia para quem tem poder e as suas origens seriam a ultima das suas preocupações. O mordomo interioriza os valores dos seus senhores e quase sempre se envergonha do lugar de onde vem. O seu orgulho é servir. Por isso mesmo Barroso foi o líder europeu mais arrojado (mais do que a própria troika ou FMI) na pressão ao Tribunal Constitucional português. Alguma vez Barroso se atreveria a dizer coisas semelhantes sobre o sempre ativo Tribunal Constitucional alemão?

O último vez que José Manuel Barroso mostrou a sua vontade de servir quem manda foi na semana passada. Perante a abertura de um processo de análise à Alemanha, obrigatório por esta ter ultrapassado os excedentes comerciais permitidos pelos tratados (6,5% em vez de 6%), o presidente da Comissão tentou diminuir o alcance daquilo que parecia um acontecimento interessante: as regras europeias também se aplicam à Alemanha, ideia peregrina que causou algum incómodo em Berlim. Barroso desfez-se em desculpas: "Isto não deve ser entendido como se a Europa estivesse contra a competitividade da Alemanha. Pelo contrário, é muito bom para a Alemanha e para a Europa, sendo a sua maior economia, que a Alemanha se mantenha como um país tão competitivo e níveis de exportação e crescimento destes. Se posso dizer, gostaríamos até de ter mais 'Alemanhas' na Europa".

Apesar da Alemanha fingir que não o compreende, ninguém terá de explicar a Barroso o absurdo deste desejo. Por um lado, os excedentes comerciais alemães, pelo menos na proporção dos últimos anos, criam uma pressão para a valorização do euro, o que é uma tragédia para muitos países europeus, impedindo qualquer ajustamento económico. Ou seja, são, para o euro, um problema tão grave como o oposto. Por outro, o mercado interno europeu não é compatível com excedentes nacionais destas dimensões. Por uma razão simples: para alguém vender é preciso que alguém compre. Como nenhum Estado europeu pode abdicar do enorme mercado em que está integrado, se todos decidirem que só vendem e poupam, a economia paralisa e ninguém vende nem poupa. Este excedente comercial alemão, é sabido, é, a par da absurda arquitetura do euro, um dos maiores problemas económicos atuais da Europa. Que, como avisaram já tantos economistas, ou é rapidamente resolvido (através do fim da política de contenção salarial, inibidora do consumo, há anos imposta aos trabalhadores alemães) ou destruirá o euro, a União Europeia e, por consequência, a própria Alemanha. Tratar, como Barroso tratou, esta questão como um mero pormenor técnico diz tudo sobre a forma como as instituições europeias há muito desistiram de representar os interesses de toda a Europa.

Esta vergonha em tentar que a Alemanha, por uma vez, cumpra os tratados que impõe aos outros, que em tudo contrastam com a vigorosa chantagem sobre os juízes do Constitucional português, são o retrato da Europa e das suas instituições. Barroso, pela sua fraqueza de princípios, pela ausência de coragem política e pela sua subordinação ao poder dos mais fortes é, ele mesmo, nas funções que ocupa, um retrato do estado da União. Diz-se que, depois de ter abandonado o País por um melhor emprego, quer regressar para ser eleito Presidente da República portuguesa. Tal desejo só me deixaria muito espantado se não olhasse para Belém e não encontrasse lá um dos poucos políticos que ultrapassa Barroso na subordinação de todos os valores à sua própria ambição pessoal. Mas, mesmo assim, até esta direita, deprimida com o estado em que os dois partidos que a representam estão a deixar o país, é capaz de encontrar melhor do que isto.

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