momento zen de segunda-feira

Por Carlos Esperança

Mal refeito das 4 páginas da entrevista de João César das Neves (JCN), com a digestão ainda por fazer, cai-me no regaço, desprendendo-se da NET, a homilia da segunda-feira, subordinada ao tema «Ano da Fé».

A homilia começa por esta exultação pia: «Não há felicidade maior do que saber que Deus, o Deus supremo, sublime, transcendente, que fez o céu e a terra, se entregou à morte para me salvar. A mim pessoalmente».

JCN não calcula os inimigos que, com tal denúncia, arranja para o Deus dele.

Confessa, a seguir, que «Ele está dependurado por minha causa» o que, em boa verdade, muitos, que não conhecem Deus mas conhecem JCN, hão de considerar que é bem feito. Num gesto de narcisismo e de autocrítica, JCN lembra aos incréus que «Nas paredes das salas, nas frontarias das igrejas, nos quadros dos museus, até no meu peito, em todo o lado a imagem da cruz lembra que Aquele ali, coberto de sangue, foi condenado à morte por minha causa».

Sempre achei que, num país laico, a profusão de cruzes era um abuso mas o catecúmeno delira com a abundância dos instrumentos de tortura. Eu abomino o sofrimento, o meu e o dos outros, sou contra a pena de morte, mas não absolvo quem morre para salvar JCN.

Depois de perorar sobre a morte e outros sustos com que nas aldeias os padres incutiam a fé, JCN, em transe místico e delírio pio, afirma que «a morte não é só um justo castigo dos nossos males, mas também um alívio terapêutico dos mesmos males». Podia aliviar-se de vez e aliviar-nos, mas preferiu a autocrítica, mantendo-se vivo na U. Católica e no Banco de Portugal, confessando que «Se tirar a máscara de respeitabilidade e elegância, se esquecer as justificações retóricas e os enganos convenientes, se for ao fundo das minhas razões, vejo com clareza que um juiz justo e imparcial teria de me condenar». JCN sabe bem o que faz e o que merece. Se Deus existisse…

Na pungência do desvario místico, julgando que os Cristos dependurados das cruzes, e bem crucificados, não tiram os olhos dele, acaba por afirmar o que todos sabemos dele:

«Eu, no medíocre quotidiano, continuo a mesma mesquinha criatura que sempre fui».

E lá continua a homilia, na obsessão da cruz, na adoração do crucificado, convencido de que está lá pendurado por causa dele, JCN, e que não se vai embora, «por grandes que sejam os meus crimes», desconhecendo que o crucifixo só baqueia se for maior a força da gravidade do que a resistência do prego que o segura.

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