a crise financeira e a carne para canhão

Por Ana Sá Lopes

Um dos dramáticos síndromas de Estocolmo nacionais é que a propaganda do “vivemos acima das nossas possibilidades” quase impede que a opinião pública entenda as razões da crise que faz agora cinco anos. A implosão do Lehman Brothers nos Estados Unidos e o contágio da crise financeira norte-americana à Europa puseram a descoberto as fragilidades da arquitectura europeia – dotada de uma moeda valorizada acima do dólar – em lidar com a pior crise desde a Grande Depressão. Percebeu-se depois que as debilidades de alguns países, como Portugal e a Grécia, não os deviam ter permitido aventurarem-se a aderir a uma moeda forte, uns décimos abaixo do marco alemão, sem estarem garantidos mecanismos reais de solidariedade europeia.

Infelizmente, cinco anos depois do Lehman Brothers, o que se julgava que serviria de “lição” para o mundo – os perigos do capitalismo descontrolado – não serviu para nada. Os governos, por interesse imediato, como o que está no poder actualmente em Portugal, ignoraram a crise internacional enquanto puderam – a culpa era “do Sócrates” (que tem várias culpas no cartório, mas não a de ter quase implodido a zona euro e de ser responsável pelo agravamento das desigualdades na Europa).

Hoje, os banqueiros dão lições de moral e são os principais conselheiros de governos como o nosso. Os banqueiros, para os governos, não viveram acima das suas possibilidades, porque as suas possibilidades são infinitas – incluindo a possibilidade de, em última instância, serem sempre salvos e protegidos pelos executivos que ajudam a manter e a derrubar.

O esquecimento, a demagogia, a cassete da austeridade virtuosa (para lhe chamar qualquer coisa que não seja simplesmente a cassete da defesa da classe dominante) é particularmente evidente no corte retroactivo das reformas e na lei chumbada do despedimento de funcionários públicos. Estes reformados nunca viveram acima das suas possibilidades porque, quando nasceram, não havia “possibilidades”. Nasceram num país miserável, onde quase ninguém estudava e os serviços de saúde metiam medo. Foram eles que ajudaram a construir o país mais ou menos decente que ainda temos enquanto não rebentarem com ele de vez. Solidariedade intergeracional é ter consciência do que lhes devemos e não os tratar como carne para canhão. Como diz Pacheco Pereira, defender a “revolução” acima da Constituição dá legitimidade a outras revoluções e implosões do Estado de direito.

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