o cara-de-pau



Por Luís Rainha

Há políticos que encenam ao milímetro as suas aparições na TV, encarnando a personagem certa para cada plano, cada acto das suas carreiras. Há dias vimos Paulo Portas chegar a mais uma sessão de pedinchice, então em Washington. Mal viu as câmaras, tratou de se dirigir a Carlos Moedas de facies cerrado e gestos imperativos - pose professoral de quem dá as últimas dicas a um aluno prometedor mas inseguro, antes do exame decisivo. Mesmo que, ali, o neófito fosse ele.

Depois da vergonha "irrevogável" da demissão, Paulo Portas remodelou-se como O Homem que Vai a Reuniões Importantes. Sem tempo para minudências como o prometido "guião" da reforma do Estado, nem para fazer o luto da sua anterior encarnação: o paladino dos pobres e reformados.

Afinal, depois de tantos anos agarrado ao poder, de que obra pode o pavão Portas ufanar-se? Resmas de fotocópias? À memória assomam submarinos, Pandurs, sobreiros, casinos, SIRESP. Nem uma só sílaba meritória, atenuante.

Soube-se há dias que este pendura da nossa democracia colocou as poupanças a salvo num banco estrangeiro, mal soube do que aí vinha - fosse o bom do Relvas a ser apanhado nesta e tê-lo-iam grandolado até em casa. Mas "ser apanhado" é expressão descabida: Portas nem esconde estas coisas. Lembram-se do acidente com o Jaguar da Moderna, já bem a meio do escândalo? Ele não quer saber. Julga-se tão intangível e inalcançável quanto Jacinto Leite Capelo Rego, fantasma célebre e financiador do PP. É bem capaz de ter razão.

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