... e, no entanto, é preciso escrever

Por Baptista-Bastos

Não gosto do que vejo, nem gosto de escrever o que vejo. Mas o culpado não sou eu: são estes miúdos que nos governam, sem terem atingido a maturidade desejável. Bem desejaria anotar a vida feliz que poderíamos talvez levar, sem maiores tormentos do que aqueles considerados plausíveis. Mas não. As coisas vão de mal a pior e as pessoas acabrunham-se sem solução ou remédio. Tudo se desmorona em nossa volta e os sonhos que acalentámos com o 25 de Abril desfizeram-nos. No entanto, é preciso viver, enfrentar o infortúnio que em nós se abateu, infelizes de uma fatalidade para que não nascemos, mas que nos impuseram com rude inclemência. Todos os dias, a toda a hora e a todo o instante, as notícias são pavorosas pela escuridão que envolvem, pelas ameaças que nos trazem.

Às vezes, para tentar remover a nefasta melancolia, alinho umas memórias e narro uns episódios mais joviais. Servirá de alguma coisa? Não sei. Mas logo aparece um desses que tais a noticiar decisões infaustas e, aparentemente, irremediáveis. Não conseguirmos escapar a esta tortura que nos esmaga e destrói. Digo que é preciso aguentar e esperar por melhores dias; apoio-me nos meus conhecimentos de História e escrevo que aos baixos da vida seguem-se os altos, como os alcatruzes da nora, mas logo os medos de viver emergem de uma declaração, de um anúncio, de uma advertência.

Entretanto, vamos envelhecendo, não na paz do Senhor, como afirmam os crentes (e que seja deles o reino dos céus), mas no purgatório da terra, desta terra. Nunca conheci, desde que conheço a liberdade, gente tão odiada, tão desprezada, tão execrada, como estes que nos governam, como este Presidente que nos esquece. E o desdém e o ódio tornam-se maiores na proporção em que conhecemos os dias de júbilo dos poucos meses que se seguiram a Abril.

A mágoa de envelhecer sem poder explicar, por exemplo, aos meus dois netos, que os sonhos de então tinham a dimensão do homem, e que o homem estava à altura de todas as esperanças, torna-se, essa mágoa, numa tristeza funda como uma punhalada. Claro que posso dizer que melhores dias surgirão, como uma espécie de nova aurora, mas, verdadeiramente, não posso acreditar naquilo que digo. Vejo os velhos como eu (detesto a palavra: idosos) assustados e quase em pânico movidos por silenciosos pesares; vejo legiões de jovens abandonando o chão que lhes pertence por nascimento e amor; vejo o abandono de tudo o que faz mexer a vida, e justificar a própria existência. E o rancor que se derrama como uma nódoa inapagável; o asco que aumenta, o desprezo que envenena os corações não param de se acumular. Podemos viver nesta miséria? Podemos caminhar com este peso medonho? Podemos criar os laços que se unem, ou deviam unir, sob este fardo que não esmorece?

As coisas e o mundo não mudam nem se alteram com lamúrias e queixumes. Dizem os antigos que as lamúrias e os queixumes são uma forma de oração, uma prece súplice para que forças ignoradas e transcendentes nos ajudem, sabe-se lá como?!

A História diz-nos que tudo o que é bom durou pouco tempo, e que aqueles que foram enxovalhados, diminuídos, humilhados, são sempre os mesmos. Por vezes, essa História concede uns intervalos de esperança, uns restos de alegria aos que não sabem o que isso é. É por pouco tempo. Os do mando, aqueles que se julgam senhores de tudo, até das vidas dos outros, logo se reúnem, logo se reagrupam com tenaz obstinação. Não os incomoda o ódio que alimentam; não os perturba o sofrimento que causam; não os assusta os gritos dos que amargam. Eles vivem disso: do ódio, do sofrimento e dos gritos. Não desistem nunca, a não ser que as incertezas dos humilhados se transformem no rolo compressor a vingança.

Poucas vezes se sentiu, em Portugal, nossa pátria, uma abominação tão funda e tão melindrosa; uma condenação tão viva, tão funda e tão justa como estas que nos envolvem, nos ofendem, nos asfixiam e nos vexam. Poucas vezes fomos tão esquecidos e tão desdenhados, tão espezinhados e tão mortificados como agora. Não gosto do que vejo nem gosto de escrever o que vejo. E, no entanto, sou impelido a escrever o que detesto.

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