o coração dos dedos

Por Baptista-Bastos

Ela começa a tocar e percebemos que os dedos dela possuem coração. Isso mesmo: coração. Dez dedos cheios de corações que nos estreitam, cruzam-se, trocam-se, que passam da identidade pessoal, do primado da intimidade para entrarem em outros corações. Nos nossos corações. Ela fala das secretas dimensões do indivíduo, revela as ocultas emoções dos homens, e sabemos, então, que fomos convidados para a cerimónia do que é sentido.

Maria João Pires, o universo de Maria João Pires tenta apreender as histórias dos homens, as relações subtis que os homens possuem com a sua época. O coração dos dedos de Maria João Pires faz estremecer o coração daqueles que arrumaram, na caixa das recordações, a infância, a beleza dos dias luminosos, a grandeza das batalhas dos homens. Os dedos dela remetem para essa humanidade comum, a medida dos afectos, a fraternidade dos compromissos que são as exigências prévias de todos os diálogos.

Ninguém pode viver sem música. Lopes-Graça chamava "a nossa companheira música" para definir os laços que ela sugere e implica. Mais do que outro alguém, Maria João Pires ilustra e justifica esse contrato entre os homens e os sons, entre a inquietação e a harmonia, entre a estética e a ética de que falava o grande compositor.

Quando a ouço, sobretudo nas horas em que me invade uma nefasta melancolia, sou sobressaltado para novas fraternidades, afinal sempre as mesmas. Coisas do coração. Coisas que deixam de ser princípios e emoções exclusivos para se transformarem - como dizer? - num convívio em que os corações, outros corações, nos dizem que a família está viva.

Quando Maria João Pires toca, ela não toca: interpreta, faz-nos ler a construção do nosso próprio imaginário, diz-nos, no silêncio povoado de sons, que a pertença do mundo é nossa, mesmo que o mundo nos negue tudo. Os dedos dela recusam a distância física com o lugar marcado, tornam poderoso o estado de conjunto, combatem a morte dos elos sociais.

Dez dedos cheios de corações, é o que é.

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