carta irada aos europeus de cima

Caros Europeus do Norte,

Chega de insultos. Estou farto de que muitos de vocês, aí em cima, nos considerem gente menor, cidadãos de baixa categoria, habitantes da periferia, suburbanos enfim. Escrevo em meu nome mas, tenho a certeza, milhões de pessoas em Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha subscreveriam as palavras que aqui vos deixo. Nós não somos PIIGS, sigla de mau gosto que os senhoritos da alta finança e baixa moral inventaram para melhor nos achincalhar, a nós, os do Sul, e à Irlanda a Norte. Estudamos, se nos for dada essa oportunidade, tanto quanto vocês. Trabalhamos, se nos for dada essa possibilidade, tanto ou mais do que vocês. Não somos mais, não somos menos.

Metam isto nas vossas cabecinhas de uma vez por todas: não andámos a gastar acima das nossas possibilidades e os nossos salários foram sempre muito inferiores aos vossos, ganhamos abaixo das possibilidades dos nossos patrões. Essa atoarda, de que gastámos para além do que podemos, mais não foi do que um pretexto que engendraram para nos fazerem expiar os desmandos, os erros, as vigarices de alguns banqueiros de pescada do alto, máfia e praga que, agora, deu em mandar no mundo, faz de deus poderoso e omnipotente, especula com dinheiro que não há e, sempre que as coisas correm mal, nos manda a factura para pagarmos. A vocês também, não se iludam, embora nós, os do Sul, sejamos os seus clientes favoritos, alvos preferenciais da sua gula.

Acham bem a ingerência dos vossos políticos na vida das nações a Sul? Concordam com as chantagens, as mentiras, os insultos sobre os gregos que chegam ao ponto de, descaradamente, sem qualquer respeito pelas funções que exercem, gozar abertamente com os dirigentes de um país soberano, pares dos vossos governantes e não, nunca subalternos?

Claro que nem todos se comportam como os governantes gregos. Os do meu país, desgosta-me muito ter que dizê-lo, são meras criadas de servir, moços de estrebaria ou de fretes, ridiculamente mesureiros, cegamente obedientes, subservientes até ao embaraço. Se Portugal está como está, a eles e a outros como eles o deve. Culpem os nossos políticos primeiro e, depois, podem apontar-nos o dedo também porque os elegemos. Eles governam para proveito de uma casta, mentem-nos a torto e à direita, usam o Estado como instrumento de agitação e propaganda a seu favor. Temos gente a comandar-nos os destinos que, fosse este outro país, há muito teriam sido demitidos por um presidente que se visse.

Eles sim, merecem o nosso e o vosso desprezo. Mas, pelo contrário, acolhem-nos, aí pelos vossos países, com o respeito que nos vão negando a nós. Assim não, não podemos ser amigos.

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