um embaraço chamado papa francisco

Lusa/http://www.jornalacores9.net/


Por Pedro Tadeu

Andava desconfiado de que alguns dirigentes da Igreja Portuguesa e uma parte da elite católica estavam embaraçados com o que o Papa Francisco dizia. O mote dessas reações, sempre que do Vaticano saía uma frase para a primeira página dos jornais, foi repetidamente este: "Mas a Igreja sempre disse isto. Não há aqui novidade. O Santo Padre limita-se a sublinhar algo que já há muito faz parte da nossa doutrina."

O entusiasmo mediático com Francisco é assim recebido, por estas pessoas, com uma cerebral e analítica contextualização, contrastante com a verve emocional com que os mesmos protagonistas popularizaram e glorificaram as intervenções de João Paulo II.

Essa minha desconfiança reforçou-se com a notícia elaborada pela Agência Ecclesia sobre o "Evangelii Gaudium", conhecido na semana passada, escrito pelo Papa.

O texto do órgão de informação da Igreja Católica enfatiza que esta "exortação apostólica refere-se a uma "conversão do papado" e questiona uma "centralização excessiva" que complica a vida da Igreja e a sua dinâmica missionária".

O Papa, conta a agência, "repete o desejo de "uma Igreja pobre", "ferida e suja" após sair à rua"". "Não quero uma Igreja preocupada com ser o centro e que acaba presa num emaranhado de obsessões e procedimentos", diz Francisco, citado nessa notícia, que continua: "A exortação sublinha a necessidade de fazer crescer a responsabilidade dos leigos, mantidos "à margem nas decisões" por um "excessivo clericalismo", bem como a de "ampliar o espaço para uma presença feminina mais incisiva"".

O Papa, refere o despacho, já no fim, "denuncia o atual sistema económico, preso a um "mercado divinizado", e lamenta os "ataques à liberdade religiosa"". Francisco, conclui o texto, "deixa claro que a Igreja não vai mudar a sua posição na defesa da vida e pede ajuda para as vítimas de tráfico e de novas formas de escravidão".

Tirar poder ao topo da Igreja, torpedear a ostentação ou aumentar a intervenção das mulheres e dos leigos já me parece ser algo à beira do revolucionário. Mas que dizer de partes que a notícia da Ecclesia não releva, citadas por todas as agências noticiosas e por todos os jornais do mundo, quando se lê, no linkdo site da agência, o texto completo que Francisco escreveu?

Deixo só uma frase para demonstrar as razões da minha desconfiança: "Esta economia mata. Não é possível que a morte por enregelamento dum idoso sem abrigo não seja notícia, enquanto o é a descida de dois pontos na Bolsa." Esta clareza do pensamento de Francisco não é nova para a Igreja, certo, mas é, aposto, a que incomoda mais nestes tempos decadentes.

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