é a pobreza, estúpido!

Por Luís Rainha

É apenas humano ceder à tentação de amaldiçoar a passividade das nossas gentes, a cegueira, a mansidão comatosa (mea culpa, pronto). Por norma, só se chama nomes ao povo em surdina; mas alguns revolucionários de Facebook andam a explodir em público, verberando a nula adesão popular às suas imperdíveis manifs com desabafos ao nível de “Esta nossa gente é uma grandessíssima m**** e nem de povo merece ser chamada” (história verídica). Além de pouco adiantar, é injusto.

O investigador Eldar Shafir (conselheiro de Obama no combate à pobreza) acaba de provar uma intuição dos políticos impiedosos em todo o mundo: a pobreza diminui as capacidades mentais. Medindo o QI de meio milhar de agricultores indianos, cujo modo de vida acarreta a oscilação regular entre a penúria e alguma fortuna, ele detectou uma queda de 13 pontos nos períodos de miséria. Ou seja, os pobres não o são por causa de défices cognitivos. É antes ao contrário: a “largura de banda” cerebral existente vê-se tão empenhada em preocupações básicas com a sobrevivência que pouco resta para outras decisões.

Só assim (e com as 75 mil embalagens de psicotrópicos cá vendidas por dia) se entende que Passos Coelho e Portas continuem no poder; que mentirosos escancarados não sejam expulsos à pedrada dos gabinetes ministeriais; que Seguro comande a oposição; que candidatos grotescos como Seara ou a nódoa de Gaia recebam votos para lá dos seus círculos familiares; que a desobediência ainda não seja a lei de milhões.

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