há muito tempo que não lia nada tão filho-da-puta como aquela crónica do henrique raposo

Pedro Lomba, Jaime Nogueira Pinto e Henrique Raposo
Por Pedro Vieira

nasci em 1975, já depois da revolução de abril, comemorada pelo governo de durão barroso como uma "evolução", não sei se estão lembrados dos cartazes, mas isso agora não interessa nada, nasci depois da ditadura e de detalhes como a censura prévia, cresci e formei-me entre a liberdade de imprensa, fiz visitas de estudo à capital no bairro alto, disputei palavras cruzadas do diário popular, do correio da manhã, pedinchei repetidamente à minha mãe uns trocados para comprar o independente e o sete, e mirava à socapa as páginas centrais do correio de domingo, e lia o blitz dos colegas da escola, o dn quando espoletou o dna, se não me engano lançado no ano em que comecei a trabalhar para alívio do orçamento lá de casa, e o público, que já não é o mesmo mas que continua a ser meu, e durante todos estes anos já li muita coisa que me empolgou, muita coisa que me frustrou, muita coisa que me chateou, muita prosa certeira, desonesta, esclarecedora, repelente, animadora, séria ou especulativa, mas excepção feita ao joão césar das neves, transformado numa espécie de ídolo camp das segundas-feiras, há muito tempo que não lia nada tão filho-da-puta como aquela crónica do henrique raposo, AQUELA que se refere à relação da esquerda com a pedofilia, talvez porque raramente leia o expresso, o tal semanário de referência, lá no jardim-escola para pessoas de esquerda onde passo os meus tempos livres a fechar os olhos ao abuso de crianças ainda não o assinaram, uma pena, mas atenção, eu próprio gosto de ser provocador, infame, até, a espaços, mas não tenho categoria nem inteligência nem sageza para ter uma tribuna no jornal que arriscou fazer a sua primeira primeira página com uma alfinetada ao regime do marcello (o outro), nem a categoria nem a Responsabilidade de escrever coisas minimamente consequentes numa publicação onde escrevem pessoas inteligentes de que nos é permitido discordar, miguel sousa tavares et al, e uma das coisas que me custa é que, talvez movido por uma cumplicidade de classe (adoro coisas demodés), eu até costumava ter uma simpatia de princípio para com o henrique, embora discorde de quase tudo o que ele escreve, e essa simpatia, serôdia talvez, tem a ver com as suas origens, com as nossas origens, proletárias, sem pergaminhos familiares nem laços às elites, origens mais amarradas à periferia e menos aos salões bem-pensantes, mais subúrbio, menos são bento, simpatia esboroada menos num pormenor: é que à semelhança do voltaire (adoro coisas demodés), eu discordo das canalhices que ele escreve mas estaria disposto a defender o seu direito à escrita, à publicação, até à morte, se as mesmas estivessem ameaçadas. só não deixaria de mandá-lo para o caralho à saída da gráfica.

Nota do "Quatro Almas": segue-se, para que possa conferir e quiçá bolsar, a dita crónica do Raposinho.

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